Tolentino recusa modernidade e prega “contra-reforma” poética, por Marcos Siscar (Folha de S. Paulo)

SISCAR, Marcos. “Tolentino recusa modernidade e prega ‘contra-reforma’ poética”. In: Folha de S. Paulo, Ilustrada, 22 de junho de 2006

          Em “A Imitação do Amanhecer”, Bruno Tolentino retoma a figura da cidade exótica e do exílio em termos de um platonismo didático e recheado de fórmulas. O livro, composto de 538 “sonetos-estrofes”, é dividido em três longos movimentos, inspirados pela estrutura da sonata, misturando solenes meditações sobre a transcendência com vibrantes experiências amorosas e prosaicas.

          Sua Alexandria remete à “Douve”, de Bonnefoy, ou ainda à Bizâncio, de Yeats. Mas, se a Bizâncio de Yeats é um “artifício de eternidade” capaz de fazer face à decrepitude da realidade, a Alexandria de Tolentino é a própria realidade decrépita, “urinol” manchado pelos respingos do sol platônico. O que não impede que o poeta enxergue nessa decrepitude os sinais de sua própria magnificência, “promessa” divina cumprida por meio de sua arte. A “dor” do exilado e a “alegria atroz” do iluminado tiram, aqui, proveito uma da outra, revelando a cumplicidade entre soberania e sacrifício. É comovente a franqueza com que o poeta manipula a seu favor esse paradoxo fundador da modernidade poética, que entende a auto-anulação como modo de afirmar-se. Se Tolentino recusa as formas mais célebres e características da modernidade, ele o faz não exatamente em nome de um espírito de conservação, mas de “contra-reforma” poética. Confunde o soneto com a tradição, o erudito com o culto, o clássico com o universal, o preciosismo (rima rica, referências mitológicas, métrica clássica francesa) com a preciosidade.

          O autor não vê poesia senão no “mimetismo”. Imolando a aventura da experimentação, acredita que o prodígio só se dá na prisão (“gaiola”, “calabouço”) do equívoco do real. A Alexandria que lhe agita o sangue está aprisionada pelo sensível, assim como a experiência pela forma. À dispersão do sentido, Tolentino prefere a redoma do soneto como oco do qual não se pode escapar e cujo paroxismo “infecundo” consiste em gozar estando preso. Sua “jovialidade” se mostra nessa operação pela qual o poeta transforma em “visão” e em graça o paradoxo de tal “lição de liberdade”.

          Poderíamos esperar uma leitura da relação por vezes determinista da poesia com seu presente, pelo prisma órfico da grande tradição européia (Yeats, Cavafy, Saint-John Perse). Mas o poeta parece contentar-se com o “órfico de pensar em 14 versos”, como diz em livro anterior. Poderíamos imaginar uma proposta de revisão das exclusões operadas pela tradição modernista brasileira, mas o autor prefere inserir-se no campo da polarização entre o fim do verso e a restauração da forma fixa, entre a ilusão de simplicidade e a duvidosa empostação, entre o “telos” da tecnologia e uma história (“aquela múmia”) entendida como pura repetição.

Um pensamento sobre “Tolentino recusa modernidade e prega “contra-reforma” poética, por Marcos Siscar (Folha de S. Paulo)

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