Reflexões sobre um lançamento (2006), por Alexandre Albert Gonçalves

“Os mais humanos não fazem a revolução.
Eles fazem bibliotecas.”

Jean-Luc Godard

          Na próxima terça-feira, o poeta Bruno Tolentino lançará A Imitação do Amanhecer (Editora Globo) na Fnac de Pinheiros. A Bravo! traz uma crítica de Flávia Rocha sobre o livro. Tolentino deixou o Brasil em 1964. Foi professor de Literatura Comparada em Bristol, Essex e Oxford. Depois de alguns casamentos, filhos e um período na prisão, saldo da rusga pública com Margaret Thatcher, voltou para o Brasil. Agora, mora na casa paroquial da PUC paulistana. O corpo luta contra a doença, mas as idéias permanecem vivas. Visitei-o há uma semana, depois de ler As horas de Katharina, premiado com o Jabuti em 1995.

          Perguntei-lhe se podia ver o novo livro. Trouxe-me as provas da gráfica. Também quis saber o porquê do nome e recebi uma paciente explicação. Das viagens que fez, duas imagens permaneceram na memória. Quando passou uma semana na Lapônia, perto do círculo polar ártico, viu a população local caminhar para um enorme descampado na taiga. Acompanhou-os e deparou-se com uma imensa manada de cervos brancos que olhavam silenciosamente para o sol. Só os animais percebiam que a noite de nove meses estava chegando e, por isso, reuniam-se naquele lugar. Ao anoitecer, cervos e lapônios voltavam para casa. Anos depois, Bruno visitou Alexandria. Entre a cidade e o deserto, há um grande lago repleto de flamingos. As aves também eram sensíveis ao ocaso, mas reagiam de forma diferente.

          Diante da aproximação da noite, gritavam com agressividade e quando o último raio de luz desaparecia, erguiam-se em revoada. O vermelho sangue das asas tingia o céu: a imitação do amanhecer! De fato, a revoada dos flamingos era o sinal para que o farol milenar fosse aceso. Só então, a agitada vida da cidade começava com seus vícios sedutores. Alexandria, síntese do Oriente e do Ocidente, não admitia a noite. Ela criava seu próprio dia. Bruno viu aqui o paradigma de duas cosmovisões. A Lapônia é a aceitação da noite, da finitude e, em última análise, da condição humana. Alexandria é a revolta contra tudo isso e a revolução que instaura uma nova ordem.

          Já posso ouvir a cantilena dos críticos contra o que considerarão um panfleto reformista ou, até mesmo, reacionário. É natural. Revoluções e revolucionários costumam ter aversão aos livros. Não importa a cor do regime. Alexandre Soljenitsin descreve no Arquipélago Gulag a cena que via todos os dias na janela da sua cela: uma chaminé que vertia a fumaça dos livros queimados. Para o regime, era perniciosa literatura burguesa. Muitos lembram as imagens, comuns em documentários, de soldados nazistas lançando livros de autores degenerados em uma imensa fogueira. As ideologias por trás das revoluções são, por sua própria natureza, totalitárias. Necessitam e desejam a hegemonia sobre as consciências.

          É significativo que Hegel, pai das ideologias modernas, tenha afirmado: “O meu sistema só pode ser compreendido de dentro do meu próprio sistema”. Mais sensata é a humildade do filósofo contemporâneo Gustave Thibon: “Não aspiro iluminar os homens com a minha lanterna: minha única ambição é ajudá-los a contemplar melhor o sol”. Sem dúvida, revoluções violentas são como lanternas. Só na escuridão, alguém recorre a elas. Boas bibliotecas são milhares de dedos apontando para a luz do dia.

          Além do mais, livros são muito mais poderosos do que baionetas para realizar revoluções de verdade. Fuzilem os senhores de terras. Se ninguém extirpar o egoísmo do coração dos homens, as cercas germinarão novamente. As nações podem assinar muitos tratados de paz. Se ninguém silenciar a intolerância no espírito humano, a guerra sempre vai recomeçar. A verdadeira revolução acontece dentro do homem.

          Os antigos já refletiam sobre isso. Viam a condição humana como projeto, como esperança. O homem, diziam, está sempre in fieri, em construção. Pensando nisto, o poeta grego Píndaro lançava o desafio: “Homem, torna-te o que és”. Nesta aventura, é preciso prudentia, a razão que descobre o que somos chamados a ser e orienta a conduta. Nas bibliotecas, encontramos as pedras para edificar a razão.

          E, a partir de terça-feira, Bruno Tolentino oferecerá uma bela peça de mármore para adornar nosso edifício.

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