O mito presentificado (1998) – Bruno Tolentino

TOLENTINO, Bruno. “O mito presentificado”. In: Folha de S. Paulo, +Mais!, 5 de abril de 1998

Poesia de “Invenção do Mar”, Mello Mourão, oscila entre o elegíaco e o épico

          A comunidade lusófona está em festa! Com sua “Invenção do Mar” Gerardo Mello Mourão propõe à lira nativa sua tão anelada epopéia. Entre as questões que coloca, o paradoxo do lirismo a serviço de uma idéia de épica que os tempos modernos teriam inapelavelmente revogado. Tendo a concordar com Gaëtan Picon: para suster e legitimar uma epopéia seria preciso toda uma civilização, não bastaria, por mais justa que fosse, uma exumação idealizada do heróico a tornar vibrantes as linhas mestras de uma projetada “nova fisionomia nacional”. E simplesmente porque a épica é o legado da fundação de sua mitopoética a uma coletividade ainda culturalmente intacta, isto é, linguisticamente viva em todos os seus pressupostos. Outro paradoxo, pois que a dicção de Mello Mourão foi irredutivelmente pessoal, personalista mesmo, desde seus primeiros esboços; o que não parece ter impedido seu triunfo neste poema… Sem prejuízo do louvor que lhe devemos, perguntemo-nos, pois, quais as questões que nos cabem rever e averiguar ante a vitória evidente deste texto.

          Montale advertira a seus pares que “nem tudo se pode dizer em poesia”; a lírica moderna teria fixado seus módulos na noção mesma de uma fragmentação irreparável da consciência ocidental, a qual seria, desde os declínios do ideal renascentista, inescapavelmente crepuscular. E aos alvores deste século tinha razão Ungaretti, como a tinha Eliot, a lírica moderna tornara-se “une illumination fabuleuse” de cunho nostálgico: as fulgurações do Verbo como vaga-lumes, senão ao acaso, certamente ante um ocaso particularmente seu… Confere. Não por coincidência nenhum poeta maior dos últimos três séculos europeus deixou-se tentar pela épica.

          A subjetividade da percepção confinava a lírica a uma interioridade cada vez mais imanente. Com ou sem dívida evidente ao Blake dos “Prophetic Books”, os mais longos e bem logrados poemas do “Fausto” em diante perscrutavam os abismos da alma, não se propunham a cantar os triunfos coletivos, ainda quando legítimos e reconhecidos. Restava aos grandes esboços da mente a voz dramática da “poiesis”, sim, mas em toda verificação de cimos e profundezas evitou-se desde então os registros mais amplos da voz celebratória. Chegamos assim às “Elegias de Duíno” e à “Waste Land” : o elegíaco em busca de uma totalidade da visão, indisfarçavelmente melancólica, das peripécias do ser-no-mundo…

          Ou no Velho Mundo apenas? Porque quer-me parecer que Mello Mourão circunvolteia todo esse típico drama ocidental há já algum tempo, pelo menos desde “O País dos Mourões”, mediante a incorporação do elegíaco no assédio que sua lira faz a uma particular historicidade viva que o guia, preocupa e inspira. À minúcia medieval das tapeçarias, mosaicos e vitrais, aos grandes afrescos renascentistas, em ambos os casos a um tempo descritivo e narrativo, ele vem substituindo um painel de signos e evocações cujo acento deve tanto ao lírico-elegíaco quanto aquele tom maior evocatório e fundador. E tudo isso finamente combinado aos panejamentos discursivos mais plenos e ousados. Suassuna, em toda sua obra, mas especialmente em “A Pedra do Reino”, não tem feito outra coisa.

          Ambos, sem perda de carga lírica, voltam-se decididamente para a atualidade do mito vivificador como esteio e fisionomia total da nacionalidade. Como o exemplar paraibano, nosso mais original poeta maior (e aqui Drummond tinha toda a razão) vem compondo seu monumental e intrincado painel temporal à maneira de um bordado oblíquo, conduzido pela fina agulha eminentemente elegíaca da melhor lírica moderna. A interioridade da consciência é assim convidada a deixar seus casulos para tentar uma teia sutil de referências exteriores, uma “abertura” ao extremo oposto da “Weltinenraum” rilkeana. Destarte os ritmos mais próximos à prosa constituíram sempre para este bardo o preço e o penhor de uma difícil, se tanto mais necessária, unidade formal entre dois mundos: o da percepção subjetiva e aquele outro, o do real irredutível e desafiante.

          Não sei se à vitalidade de sua visão corresponderiam de fato os dados brutos, tardiamente virginais, de uma civilização ostensivamente ainda em busca da fixação plena de uma sua mitopoética fundadora. Sei que nunca tive a impressão de entrar e sair de um texto seu que ao cabo falhasse a esse precário, fulgurante equilíbrio entre o lírico e o épico. Como sei que tudo isso anunciava-se já desde seu mais belo poema, em “Os Peães”, a elegia ao irmão morto na infância.

          A partir dali em sua obra os tempos se cotejam e se fundem ao seu mais sensível, os planos temporais se entrelaçam e a perspectiva mostra-se cambiante a serviço de uma restituição menos do “passado” do que de uma emoção permanente, particularizada e celebrada “sub species aeternitatis”. Vale dizer que em seus melhores momentos até agora o poeta vinha afirmando, senão mesmo fundando, uma proposição histórica sobre o frágil tecido não tanto de uma nostalgia quanto de uma incompletude, possivelmente ontológica esta última. Dito isto, qualquer pertinente ressalva não subtraía nada à impressão final; quando afirmativo e celebratório, o texto tendia a perder em tensão o que ganhava em escopo, talvez, mas não aqui nesta “Invenção do Mar”. E por quê?

          Talvez porque aqui o mito, esse “nada que é tudo” -sustento daquela concisa gema de epopéia interiorizante (se em nada “subjetiva”) que é cada dia mais a “Mensagem” do maior português de nossos tempos -o mítico desta vez vê-se traduzido em realidade temporal concreta e imediata, despida de idealizações e abstrações mediante uma deslocação da matéria poética de um “passado” a um “presente perpetuo” (O. Paz), ambos menos a inquirir que a coisificar. Daí o declarado pendor de Mello Mourão para o etos, o nome como elemento substantivo fundador.

          É fato sabido que, à distância, a dimensão heróica ascende a uma legitimidade que se entretece igualmente bem do mítico e do telúrico -mas, neste seu caleidoscópio de enumerações, como o logra nosso poeta? Sem negar-se aos particularismos evocatórios que o caracterizam ao seu melhor, a pujança e a pungência desta moderna epopéia lírica parece-me sustentar-se de uma acronicidade que é sobretudo um convite aos saltos da imaginação sobre o fosso do conceito, ou antes, do conceitual discursivo. Uma dança -sobre o arco dos tempos!- do imaginário substantivado não me parece pouco, e este poeta insiste em preferir as sugestões de atemporalidade do palimpsesto ao método “compositivo” do vitral poundiano, este sim perigosamente nostálgico em sua esplêndida retórica feita de obscuridades e oscilações entre o medieval e o contemporâneo. Talvez fosse que Pound falava de uma pujança perdida a uma civilização exausta, dirigia-se a uma confraria de “cadáveres no banquete” impossível, “dispiciente” diria o Drummond de “A Máquina do Mundo”.

          Talvez. Mas no caso de Mello Mourão é possível que estejamos enfim diante do perfil reconstituído de uma civilização ainda muito longe de qualquer exaustão nostálgica, uma angélica visitação revista sob as espécies de um novíssimo cubismo tão retroativo quanto vibrante, porque ainda vital, ou, se o preferirmos, “incompleto”. Ora, como assim, após meio milênio de instaurações?! Aqui bastaria lembrar aos céticos a surpresa instauradora que foram os dois “Teoremas da Incompletude” de Kurt Gödel, aquele judeu vienense redentor sem nostalgias da moderna lógica modal em plenos anos 30…

          Em todo caso, ante esta proposta de um novo “Carmen Saeculare”, parece-me impossível não responder à sua particularíssima orquestração dos fragmentos do imaginário coletivo senão por uma jubilosa adesão voluntária ao celebratório, àquele clima de festa a que aludi no início destas poucas linhas. Serão precisas muitas mais, e bem mais particularizadas, a medir o impacto deste todo feito de entalhes e obliquidades: o inventário dos processos e resultados desta máscula alquimia intelectual do espírito é tarefa para a gaia ciência de gerações. Mas a esperamos desde já, a análise estilística que nossa crítica continua a dever ao mais desafiador de nossos “miglori fabbri”…

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