O meu encontro com Cristo (2003), por Vando Valentini (Revista Passos)

Entrevista de Bruno Tolentino a Vando Valentini (Revista Passos n. 40, junho/2003)

Una educação moderna, intelectual, revolucionária. Depois, uma vida de Dr. Jekill e Mr. Hyde. O encontro com grandes personalidades da poesia no mundo todo e, enfim, a descoberta da fé. História de um poeta e do seu retorno à Igreja.

          Bruno Tolentino nasce em 1940, em uma tradicional e rica família carioca. Desde criança convive com intelectuais e escritores que circulam nas recepções e participam do cotidiano de sua casa, onde todos falam inglês e francês com fluência. Em 1964, com o golpe militar no Brasil, parte para a Europa e Elizabeth Bishop o apresenta a Wystan Hugh Auden. Na Itália torna-se hóspede do poeta Giuseppe Ungaretti. Na Inglaterra Bruno ocupa o cargo de professor nas Universidades de Oxford e Essex, mas, em 1987, sob a acusação de tráfico de drogas, é condenado a 11 anos de prisão. Durante 22 meses cumpre sentença em Dartmoor, sendo que ao final desse período a pena é suspensa. Retorna ao Brasil em 1993. Em 1995 recebeu o prêmio “Jabuti” pelo livro As horas de Katarina e nesse ano acaba de vencer pela segunda vez o prêmio como reconhecimento do seu mais recente trabalho, o livro O mundo como idéia.

          O senhor nasceu no Rio de Janeiro de uma família religiosa, mas na sua juventude deixou de ser católico. Como se deu a sua relação com Deus e o fato de ser poeta?

          Já aos 23 anos eu era um bom poeta, mas isso sem nenhum mérito meu. Era mais uma decorrência da maneira como eu tinha sido educado, dos lugares que freqüentava. Mas também haveríamos de reconhecer que nesse processo todo entra sem dúvida a graça do Espírito Santo. Aos vinte anos ganhei, aqui no Brasil, o prêmio Revelação com o livro Anulação e Outros Reparos (São Paulo, Massao Ohno Editor, 1963), dois outros livros escrevi na França: Le Vrai Le Vain (O Verdadeiro O Vão, Paris, Aethels, 1971) e Au Colloque des Monstres (No Colóquio dos Monstros, Paris, 1973). E na Inglaterra About the Hunt (A Propósito da Caçada. Inglaterra, Oxford University Press, Inglaterra, 1978).

          Esta obra poética já poderia ser suficiente para deixar uma marca importante, apesar disso foi com a minha conversão que a minha poesia amadureceu e ficou infinitamente mais importante. A minha trajetória entre os 17 aos 39 anos foi de um certo modo, mas aos 40 anos eu comecei meu caminho de volta para Igreja. O Espírito Santo sempre colaborou comigo, mas foi nesse momento que eu comecei a colaborar com Ele.

          Foi pela mão de Maria, com quem sempre mantive uma relação estreita – mesmo durante a fase na qual não acreditava no Filho dela –, que vivia o relacionamento com o Mistério. Mesmo não acreditando em Deus, não largava o manto de Maria.

          Lembro-me que aos cinco anos de idade minha mãe me levava com ela nas orações das Filhas de Maria e uma vez uma senhora me disse: “Veja que aquela nossa senhora ali, foi aquela que sorriu para Santa Teresinha”. Nunca mais esse fato saiu da minha cabeça. Minha relação com o Mistério durante os anos da minha juventude passou através das conversas com uma estátua de pedra da Virgem Maria. Foi o que aconteceu comigo, mas essas coisas podem passar a ter várias manifestações. O que interessa não é o como, senão o fato de que as coisas de Deus quando tocam, ninguém de nós consegue mudar.

          Na conversão o que acontece é que o que existia antes se torna mais verdadeiro. Poderia nos descrever esse processo, se ocorreu na sua experiência?

          A conversão foi o processo que me levou para a cadeia. A partir de minha conversão vi que não podia mais viver uma vida dupla, a vida do médico e do monstro (refere-se ao famoso livro de R. L. Stevenson, O médico e o monstro, que conta a história de Dr. Jekyll e Mr. Hyde; nde); antes disso fazia um pouco de tudo, tráfico de influência, de droga, fui para o Líbano, me meti na guerra e outras maluquices desse tipo. Um dia uma moça libanesa me disse: “Você precisa botar honra no seu código”, isto é, me faltava integridade. Fui entender isso somente quando um aluno meu em Essex foi se tornar monge beneditino e encontrei com ele. Era mestre dos noviços e foi ele que me falou pela primeira vez de integridade.

          A minha educação foi tipicamente francesa: uma educação da esperteza, da originalidade, uma educação anti-tradicional, educação revolucionária para a qual não há virtudes morais, todas as coisas são instrumentais, meios para fins. Eu passei sete anos para me desvencilhar deste pensamento moderno. Só então percebi que os meus grandes mestres na poesia, Manuel Bandeira aqui no Brasil, Ungaretti na Itália, Saint-John Perse na França e W. H. Auden na Inglaterra eram todos católicos. Havia outros aos quais poderia me ligar, como Montale ou Bonnefoy, mas estes mesmo sendo amigos, não foram tão importantes.

          Sete anos foram necessários para diagnosticar o meu problema que não era religioso, não era uma questão de fé, no sentido de crença, como diz Katharina no meu livro: “as crenças não te melhoram”. O meu era um problema de comportamento moral. Como diz Giussani: “o que te melhora é olhar para uma presença”. Explico-me: diante de Cristo, você não pode mais trapacear, diante de uma presença não pode ficar ambíguo. Quando a presença é real você fica constrangido.

          A noção de indivíduo ficou mais clara para mim. Ser indivíduo é ser indivíduo diante de alguém, diante de Cristo. Para Voltaire é outra coisa, ser indivíduo é contestar uma série de coisas, é ser revolucionário, é estar diante do Estado. É se servir da realidade e não servir a realidade. É estar diante de idéias, coisas enormes e impessoais, ninguém está te olhando.

          Nesses sete anos eu tive que me départir, separar-me desta segunda natureza que foi a minha educação laica. Tive que ir para cadeia, porque lá eu não podia mais trapacear, a polícia estava sempre me olhando e eu não tinha mais nem os meios físicos para trapacear, não podia mais mentir, não podia mais manter uma vida dupla.

          O cristianismo não é uma teoria, não é nem a voz de Deus, é pura e simplesmente uma presença de alguém real, sobrenatural, que está sempre com você e diante do qual você deve fazer tudo o que a vida te impulsiona a fazer.

          Que aspectos de sua poesia encontraram a verdade e amadureceram neste encontro com a Presença?

          Com a minha conversão, não me tornei um poeta melhor. A busca pelo real já estava presente na minha juventude, dizia: o real é esta constante correção do comportamento humano, o real está aí para que a pessoa busque sempre um modo de convívio com ele, um respeito fundamental.

          Quarenta anos depois, em 2002, conheci o pensamento de padre Giussani quando ele diz: “a inexorável positividade do real”, e descobri este ponto de contato com ele. Contato que não encontrei nem com Von Balthasar nem com Eric Voegelin, nem com os grandes pensadores que me influenciaram.

          Há muito mais contatos com Padre Giussani, porque ele é um verdadeiro educador, é um formador da consciência alheia, não está interessado em vender o seu peixe, mas em treinar pescadores.

          Outro aspecto muito importante de meu encontro com Padre Giussani é o papel do laico. Desde a débâcle revolucionária o papel do laico (do professor, do escritor, do jornalista, do intelectual) é cada vez mais importante para testemunhar Cristo neste mundo tão laicizado. Na Rússia foi banida a Bíblia e cerceada a Igreja, mas tudo passou através de Tolstoi e Dostoievski.

          Mas voltando à sua pergunta inicial sobre a conversão. É como a parábola do sal. Cristo é o sal. O sal realça o gosto da comida, não muda o gosto da comida, torna o peixe mais peixe, a carne mais carne. Assim como o encontro com Cristo não muda o que você é, mas agora você se torna você na dosagem perfeita: aquilo para que você era destinado ser. Eu estou neste processo em que sou cada vez mais eu mesmo. Eu parei de ser uma caricatura de mim mesmo. Como dizia Píndaro: “Torna-te o que tu és”. Você se torna o que você é. Há um nível supra-real da pessoa. É isso o que só Deus sabe. Nesta perspectiva o ato poético é um ante-gosto, um antepasto desta plenitude.

          A posição contrária à atenção ao real é a posição ideológica. Hoje parece ser a época do fim das ideologias, da crise desta forma de pensamento. O senhor concorda com isso? Parece que acabaram as ideologias, mas na vida do cotidiano se vê quanto ainda somos dominados por um pensamento ideológico que não nos permite olhar para a realidade.

          Não acredito que a “dama idéia” passe de moda, nem desista. Que fique bem claro que isto de que estou falando não é uma “coisa”. É algo constitutivo do ser humano. O que entrou em crise foi o modo como a ideologia se apresenta, mas a “dama idéia” não larga o osso. Porque o contrário dela é a liberdade, e a outra coisa que a época moderna não aceita é a liberdade. Desde quando o cristianismo está na defensiva a liberdade está em cheque, porque a liberdade é esta relação do homem diante de Deus, esta relação contínua e criativa com a realidade.

          Qualquer que seja o apelido que a “dama idéia” tenha, poderá ser vermelha, preta ou azul… onde não estiver o cristianismo tudo pode ser reduzido a ela. O cristianismo é este chamado à relação responsável homem a homem, do homem-Deus rumo ao homem, do Filho de Maria, que um dia nasceu e morava numa rua tal e que portanto não posso reduzir a uma idéia. Onde não houver esta relação fundamental com o fato humano fundamental, o Filho que saiu do ventre de Maria, a “dama idéia” volta a dar o show dela. Veja esta Universidade Católica, para transformá-la naquilo que fizeram, precisou primeiro esvaziar o cristianismo de seu conteúdo, reduzindo-o a uma ótima idéia (vamos lutar para os pobres, vamos resolver as coisas etc…) assim a universidade se torna uma instituição. Para isso é preciso que desapareça tudo o que cheire a humanidade pura, eliminar Maria e os Santos, desta forma Deus, o Deus Trinitário, fica lá no céu. Para que a “dama idéia” possa dar as cartas é necessário esvaziar o cristianismo de conteúdo e deixá-lo no reino do conhecimento. O cristianismo seria a milésima idéia que a Humanidade não pôs em prática. Não se trata mais dessa “inexorável positividade do real” que se me impõe e que impõe o outro. Assim é possível substituir a presença inevitável e opaca do outro com um receituário.

          O senhor compartilhou o último ano de vida e acompanhou a doença do padre Virgilio Resi. Sendo assim, como o senhor vê a experiência do sofrimento e da dor?

          A segunda parte do meu último livro O Mundo como Idéia (Rio de Janeiro, Globo, 2002), com o título Lição de Trevas fala exatamente desse assunto, o sofrimento e sua função de transfiguração.

          No caso específico da tragédia que vivemos com o Padre Virgilio é como se uma vez mais Cristo tivesse consagrado a sua Igreja. O Movimento dependia imensamente dele. Padre Virgilio era um homem de intelecto brilhante e de intensa humanidade. Ele vivia no Santuário de Maria da Piedade e ali sofreu aos 50 anos o seu martírio. Ou você percebe isso de certa forma, como uma unção excepcional de Deus, que deu o seu próprio Filho, ou você joga tudo fora. O Sangue dos mártires é aquilo que sempre manteve a Igreja viva.

          O Dom do Sangue (Blutvergiftung), é o nome de um poema do livro As Horas de Katharina (São Paulo, Companhia das Letras, 1994). Isso está na base do cristianismo, começa com o Cristo e continua com o sangue dos mártires. Depois disso parece que o martírio acabou, mas só não se mata mais institucionalmente, ou melhor não aparece. Mas continua, vejam este meu poema que conta a experiência de uma monja carmelita: Blutvergiftung. Peguei essa expressão de Lutero que disse duas coisas muito verdadeiras sobre isso: a cruz não pode ser escolhida, é sempre imposta, não é um enfeite, não existe uma cruz compatível com a auto-estima, compatível com aquilo que você é.

          Porque a gente corre o perigo de não notar a presença de Deus, você acha que Cristo não está presente. A pessoa se parece mais com Deus quando a criatura perdoa; e não é por moralismo, nem por uma boa idéia, mas porque é a coisa mais fácil para Deus fazer. Daí se vê que é verdade que Cristo se faz presente quando Ele sofre, quando Ele doa seu sangue. Aí é na morte que o cristão se confunde com Cristo porque é neste momento que ele oferece seu sangue.

          O fim de Virgilio foi muito doloroso. Ele me dizia: “Ainda ontem tivemos aquela conversa sobre a ‘inexorável positividade do real’. E agora? Ou isto é positivo ou tudo foi uma grande bobagem”. Nessa hora ninguém achava que ele iria morrer. Virgilio viveu um ano de sofrimento. Se a Igreja é o Corpo Místico de Cristo, este corpo não pode existir sem sangue, e este sangue é o meu, é o seu, é o suor do sangue que a gente sua o dia inteiro.

          Agora Virgilio está na Glória, com tudo aquilo que ele sofreu aqui… É claro que saudade a gente sente, mas…, e o nosso chamado não é para se tornar como o Virgilio, pois cada um é o que é. Cada um deve percorrer o mesmo caminho, se identificar com ele, e oferecer o próprio sacrifício. Para mim o martírio é outro: é agüentar esse povo que não entende do que estou falando com a minha poesia.

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