O demonismo sob a métrica (1994), entrevista por Mauro Trindade

Entrevista de Bruno Tolentino a Mauro Trindade (O Globo, 9 de julho de 1994)

Amigo de Auden, discípulo de Bandeira, Bruno Tolentino lança livros e ataca a poesia brasileira: “É uma porcaria”

          A erudição e a polêmica estão de volta à poesia brasileira. O poeta e ensaísta Bruno Tolentino, há 30 anos radicado na Europa, retornou ao Brasil para lançar seu livro de poesias “As horas de Katherina” (editora Cia. das Letras), que chega às livrarias no próximo dia 20. Ex-professor de Literatura das universidades de Bristol e Essex, atualmente dirige o Oxford Poetry Now, núcleo de arte contemporânea daquela universidade inglesa. O escritor lança ainda este ano no Brasil mais um livro de poesias e, na Inglaterra, seu ensaio “As vinhas do paradoxo”, sobre o catolicismo. Aos 53 anos, Bruno Tolentino pratica uma poesia religiosa, untada de referências literárias e filosóficas e construída sobre versos de sólida métrica. E aproveita sua entrevista ao GLOBO para lembrar do amigo, o escritor inglês W.H. Auden e criticar a poesia brasileira destas últimas três décadas, segundo, ele “uma porcaria, mera invenção de um mau jornalismo”.

O GLOBO – Depois de praticamente se extingüir no Brasil, a métrica e a rima reaparecem com toda a força em “As horas de Katharina”. Por que o interesse em recursos técnicos considerados do passado?

BRUNO TOLENTINO – Sou desde a mais tensa idade um discípulo direto de Manuel Bandeira e de Cecília Meireles, que freqüentavam a casa de minha tia Lúcia Miguel Pereira, biógrafa de Machado de Assis e Gonçalves Dias. Eles me levavam a sério e me corrigiam. Dona Cecília era mais generosa, mas o Manuel era muito exigente. O problema não é da métrica, mas da poesia brasileira que, nos últimos anos, se mediocrizou. Boa mesmo é a Adélia Prado. Mas ela não faz poesia culta. Se faz, esconde. A cultura está fora de moda. Nos desinteressamos no refinamento, na cultura. Chegamos ao infantilismo cultural.

O GLOBO – E a poesia marginal dos anos 70?

TOLENTINO – Esse pessoal me procurava em Londres e eu espinafrava a todos. Acompanhei de longe esta abominável desagregação. O Antônio Carlos Brito tinha talento, até passar a escrever besteiras com o pseudônimo de Cacaso. Com essa gente, não é à toa que a rima se tornou pueril.

O GLOBO – Se essa poesia era tão ruim, como se tornou tão conhecida?

TOLENTINO – Ela é exclusivamente produto do mau jornalismo, dos jornalistas que mal são repórteres e querem ser literatos. Desde o tempo do atentado a Getúlio, eu perdi a confiança no certo e no errado. na época, as mentiras mais deslavadas e escancaradas eram publicadas como verdade, contra e a favor do presidente e de Lacerda. Essa é a origem de meu demonismo.

O GLOBO – Demonismo? Mas sua poesia não é fortemente religiosa?

TOLENTINO – Cristo me persegue de um lado e Maria Madalena do outro. Como em minha família, com seus intelectuais de segunda e escritores de terceira. Por parte de pai, sou descendente de Nicolau Tolentino, poeta satírico do século XVIII, e pela mãe, de Joaquim Manoel de Macedo. E, ao mesmo tempo, somos todos descendentes de um padre português que fugiu para o Brasil. Meu tio-avô, José Tolentino, foi ministro de Nilo Peçanha e, naquela época, montou um apartamento para um travesti em Paris. E bem antes de “M. Butterfly”, viu?

O GLOBO – Como você se aproximou do catolicismo?

TOLENTINO – Fui aluno dos beneditinos, mas só me reencontrei com a religião em 1986, quando meu filho quase morreu na barriga da mãe. Eu já era um scholar e estudava o catolicismo primitivo. Esse, aliás, é o tema de meu ensaio “As vinhas do paradoxo”, que a Universidade de Oxford publica este ano. Num certo momento houve um grande desvio na Igreja Católica.

O GLOBO – Que espécie de desvio?

TOLENTINO – Passou-se a acreditar em um espírito após a morte. O que é isso? Alma sem corpo é uma abstração, pior, uma assombração. Antes da influência do neoplatonismo de Alexandria na Igreja Católica, compreendia-se melhor que a base da fé está na idéia da ressurreição. Se você crê que aquele sujeito furado de pregos na cruz reviveu, então acredita na religião. A idéia da transfiguração é a base da fé. Ninguém vira espírito, uma onda no ar, como aquela novela ruim.

O GLOBO – Por que o título “As horas de Katherina”?

TOLENTINO – É uma biografia espiritual. Essa Katherina existe dentro de cada um de nós. O livro nasceu de uma paixão minha pela poeta austríaca Ingeborg Bachmann. Como eu não consegui nada com ela, lhe dizia que ela era uma freira enrustida. Depois ela morreu tragicamente num incêndio. Fiquei impressionado com isso e coloquei no livro esta história de freira. O nome Katherina eu tomei emprestado de uma prostituta que conheci.

Auden: bondoso demais para ser genial

          O círculo de amigos de Bruno Tolentino na Europa incluía o poeta italiano Ungaretti, o dramaturgo Samuel Beckett – “aquele irlandês sovina”, brinca o brasileiro – e, principalmente, Wystan Hugh Auden, considerado um dos três mais importantes poetas de língua inglesa de nosso século, ao lado de Yeats e Eliot.

– Ele foi um grande amigo que me levou para o círculo de poetas contemporâneos de Oxford. Mas nunca foi um artista tão bom quanto Eliot ou Yeats. E isto era seu drama. De qualquer forma, eu lhe devo uma tradução para o português – diz.

A despeito das críticas de Bruno Tolentino. W.H. Auden deixou importantes peças de teatro, a ópera “Elegia para jovens amantes”, escrita em parceria com Stravinsky, e diversos livros de poesia.

– Eu costumava conversar com Otto Lara Resende e sempre comparávamos Auden e Odylo Costa, filho, que também não foi um escritor genial, mas era um homem boníssimo. Eu dizia ao Otto que ninguém tão bom poderia escrever bem. Ele me respondia que, pelo menos, Auden era gay. O Otto estava certo. Auden era um bom cristão, um homem de grande sabedoria, mas é preciso um toque demoníaco – invoca.

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