Janelas sobre o caos (2000) – Bruno Tolentino

TOLENTINO, Bruno. “Janelas sobre o caos”. In: Bravo! n. 29, fevereiro/2000, pp. 21-2

Qual é a poesia brasileira pós-João Cabral?

          Entre as oito ou dez grandes línguas de cultura do Ocidente, nossa última flor do Lácio marca presença maior neste fim de milênio? Antes que uma resposta leve a novas perguntas, observe-se que é em sua lírica que toda civilização vai buscar o grão e o adubo que fazem – ou não – florescer uma “terra de cultura”. É no verbo poético que o espírito da língua encontra a seiva que há de nutrir a árvore múltipla do pensamento e da linguagem. Ensaio ou ficção, a mais iluminante e mais profunda prosa deita raízes naquele subsolo da sensibilidade que os poetas da raça tornaram fértil por meio do verbo em seu estado a um só tempo puro, elementar e maior. Em termos rilkianos, (“der unershöpflich Eines, Reines, spricht”), a ininterrupta e límpida unidade “de discurso” do verbo água-de-fonte.

          Um dos pais fundadores da cultura do Ocidente, Aristóteles reclamava para a poesia a dignidade de primórdio do ato cognoscente, dava-a como o “primeiro andar” do edifício do discurso humano, o instante intuitivo do seu quadrifólio desdobramento. A questão que nos legou persiste: pode uma cultura desenvolver uma arte da discussão política (Retórica), uma arte da triagem racional dos discursos (Dialética), ou uma técnica da demonstração apodítica (Lógica), sem antes possuir um universo mitopoético que funda a comunidade de sentimentos e valores em que se há de arraigar a credibilidade pública dos argumentos?

          Nessa perspectiva, agrava-se a responsabilidade dos poetas, porque seriam os semeadores, dariam a medida das possibilidades futuras do espírito. Se Aristóteles tinha razão, o que se passa no horizonte intelectual do Brasil nos últimos tempos é preocupante. Senão vejamos: o horizonte mental do intelectual brasileiro de hoje, saiba-o ele ou não, é medido pela envergadura do Carlos Drummond de Andrade, nosso poeta maior até ontem. Ora, a poesia de Drummond é tão grande quanto é filosoficamente estreito o universo de concepções que nos legou. O homem drummondiano não parece ter por objeto de vida sobre a terra nada mais alto que a estetização do cotidiano e a busca das raízes, do telúrico, do “nacional”, pontilhado este último por arroubos de idealismo político-social.

          É nesse sentido que a intelectualidade dos nossos dias passou a mover-se dentro da moldura drummondiana do mundo. Os impulsos de transcendência, a inquirição metafísica, a busca de uma dimensão sacro-mítica, o mesmo intuito religioso que a poderiam erguer acima do “mundinho poetizado”, ainda que poderosamente, pelo grande vate, ao fim e ao cabo satisfazem-se e esgotam-se com a luta política inflada em meta suprema da existência. O social “per se”, a história idealizada como locus de um suposto progresso ad infinitum, atingiram entre nós o nível de uma absurda paródia do sagrado, uma verdadeira (?) metafísica historicista, obviamente uma contradição em termos. Mas é justamente esta espécie de mal du siècle local que desbota e sufoca a vida do espírito no Brasil de hoje. Um impasse de suma gravidade, pois, como se há de moldar e afirmar o novo poeta maior dentro de uma moldura tão estreita e estrangulante? Se o father founder de nosso tempo, em vez de Carlos Drummond de Andrade, tivesse sido Fernando Pessoa, por exemplo, teríamos uma pletora de caminhos e opções, do pessimismo progressista de Álvaro de Campos ao ruralismo arcádico de Alberto Caeiro, do neoclassicismo agnóstico de Ricardo Reis à metafísica melancólico-messiânica do próprio Pessoa. E assim foi com Portugal, que os quatro heterônimos fecundaram do pós-guerra em diante.

          Sobre esse ponto, a tempo: a tão lamentada reclassicização de nossa poesia, por volta de 1940, tem tanto a ver com o esgotamento da proposta modernista, o fracasso da estética da estridência, quanto com a chegada ao Brasil dos livrinhos da Ática cheios da inolvidável voz do célebre quarteto, sobretudo Reis e “ele-mesmo”, na bagagem de Jayme Cortezão, Augustinho Silva e outros ilustres exilados de Salazar. E, aliás, T.S. Eliot também pegou essa carona: é a Maria da Saüdade, filha de Jayme e noiva-quase-esposa de Murilo Mendes, que se deve sua introdução a nossos escritores, pouco anglófonos, da era. Existiria A Máquina do Mundo sem que Saüdade fizesse ler a um Drummond quarentão sua fina (e até hoje inédita) versão do Little Gidding? I doubt it… O certo é que a Irlanda que se nutriu de Yeats foi especialmente visionária, bem mais do que rebelde. A Itália de Ungaretti e Montale oscilaria décadas inteiras entre a visão integral sacralizante de um e o ceticismo interrogativo do outro. Claudel e Valéry dividiram também, dramaticamente, uma França que caiu aos pes de Vichy e gerou o levante gaulista: Jeanne D’Arc versus Candide. A tragédia espanhola espelha-se na dicotomia de Unamuno e Machado, a Espanha peregrina nasce no túmulo de Lorca… E assim por diante. Se qualquer desses tivesse sido nosso poeta maior, dificilmente teríamos a viver hoje um panorama tão acabrunhante.

          Ora, se é ao poeta, espécie maior de um momento crucial da raça, que cabe buscar e fundar o novo Mitus a ser subseqüentemente iluminado pelo advento racional do novo Logos, é a essa figura epônima que se voltam por força os olhos de um antologista. Digo isso porque venho limpando as lentes e apertando os olhos desde que certa editora européia me pediu uma “Apresentação da Poesia Brasileira” desta segunda metade do século. O desafio me tem dado tratos à bola por conta das considerações acima. Como compor um panorama que, por especificação de quem o encomenda, deve compreender o período pós-João Cabral de Melo Neto, ou seja, excluí-lo e aos sete grandes que o precedem, Manoel Bandeira, Drummond, Jorge de Lima, Cecília Meireles, Vinícius de Moraes e Murilo Mendes? O ponto de partida é óbvio: é imperativo começar por Ferreira Gullar e Mário Faustino, seguir com Adélia Prado e Alberto da Cunha Melo, somar-lhes os universos particularíssimos de Manoel de Barros e Gerardo Mello Mourão, e o segmento da vanguarda que não abandonou o discurso, ou seja, Mário Chamie. Até aí, tudo é ponto pacífico, mas prosseguir em que direção, com que metro e tendo em vista que horizonte?

          O que você faria, leitor? Reflita no que lhe propus acima e compadeça-se desta escriba. Use meu e-mail para vir ao socorro de minhas perplexidades e responsabilidades em tarefa tão ingrata. Mais que bem-vindas, suas sugestões serão meditadas e respondidas. Temos seis meses para que o livro saia, em setembro. Já tem nome: o muriliano Janelas sobre o Caos: A Poesia do Brasil ao ano 2000. Todos os autores deverão ter nascido durante a primeira metade do século que se acaba, isto é, até 1950. Disporão de 400 páginas, mas olhe que não se trata de uma meia dúzia qualquer… Ou ando otimista demais?

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