Duas ou três verdades sobre Bruno Tolentino (2003), entrevista por Cristiane Costa (JB Online)

Entrevista de Bruno Tolentino a Cristiane Costa (JB Online: Idéias, 11 de janeiro de 2003)

          Que o poeta é um fingidor todo mundo está cansado de saber. Mas, quando se trata de Bruno Tolentino, a história dá um nó. Afinal, desde que voltou ao Brasil, em 1994, após quase 30 anos de exílio voluntário na Europa, o poeta já foi capa dos principais suplementos literários, teve seus livros publicados pelas mais importantes editoras, ganhou prêmios e leitores que melhor seriam chamados de adoradores, e colecionou um Maracanã lotado de inimigos. Agora, depois de um ano e meio recolhido ao que narra ser uma espécie de ”ermitério”, em Minas Gerais, ele está de volta. Cabelos curtos, sem barba, surpreendentemente zen, Tolentino diz que se transformou no ”Bruninho Paz e Amor”. Debaixo do braço, traz O mundo como idéia, que define como ”o livro de uma vida”.

         O certo é que, de tédio, os futuros biógrafos de Bruno Tolentino nunca morrerão. Perto dele, qualquer poeta brasileiro é um beletrista provinciano. Quem, entre os maiores, teria tido uma vida tão rica?

          O problema está justamente aí. A biografia de Bruno Tolentino é tão cheia de histórias mirabolantes que provoca suspeitas. Estaria-se diante de um mitômano capaz de fazer de trouxa meio mundo literário? Ou seria apenas intriga da oposição, invejosa do brasileiro que chegou vangloriando-se de que foi amigo de Auden, professor das universidades de Bristol e Essex e diretor da Oxford Poetry Now, entre outros méritos conquistados no estrangeiro. E olha que Bruno nem contou que usava um casaco de pele branco até os pés e tinha um jaguar vermelho, como recorda um idôneo professor de Literatura que conviveu com ele em Oxford .

          – Isso chegou a um ponto em que a Folha de S.Paulo fez uma investigação a respeito da minha vida. De repente, os amigos começaram a ligar, dizendo que repórteres estavam checando minhas histórias. E sabe o que descobriram? Nada. Mas, como não teve desmentido, a Folha não publica. E continuam essas intrigas na surdina – revolta-se.

         As ”intrigas” chegaram a tal ponto que surgiram até dúvidas de que a doença que tirou Bruno de circulação fosse real. Afinal, ter Aids e câncer ao mesmo tempo não seria um exagero típico de Tolentino? O poeta se defende:

          – Até isso andam dizendo? Tive um tumor cancerígeno no reto, em 1996, que tratei com césio. Depois não tive mais nada. Talvez por influência da Aids. Em 14% dos casos, o coquetel de remédios para a Aids tem o poder de neutralizar o câncer. A OMS ainda não anunciou, vai esperar 10 anos, mas em 1 a cada 7 casos, isso acontece. Mas nem o coquetel contra a Aids tomo mais. Estou de férias – explica, exibindo, após o tratamento, uma aparência ainda mais saudável do que quando descobriu a doença. Sem esquecer o eterno pendor poético para lisonjear musas de todas as idades.

          Mas a vida tão cheia de surpresas de Bruno Tolentino ainda daria muitas voltas.

         – Depois que me recuperei da doença, fiquei desapontado. Minhas obras já estavam todas prontas, como católico estava com a vida em dia, meus filhos todos criados, e agora? – perguntou-se. – Meu plano era esse: morrer. Se não ia mais morrer, iria fazer o quê, então?

          Foi então que Bruno resolveu se ordenar.

          – Quero morrer padre, é meu sonho desde garoto. Se não houvesse o celibato, já teria me ordenado há muito tempo – conta.

          Decidido, o poeta rumou para a Serra da Piedade, a 1.800 metros de altura, nas proximidades de Belo Horizonte. Segundo ele, o lugar é uma espécie de ermitério, com uma biblioteca de 20 mil volumes e apenas três padres por companhia, onde viveu por 1 ano e meio.

          – Na verdade, é a terceira vez que tento me ordenar. Mas, em geral, aparece uma moça bem viva para me tirar do caminho – brinca.

          Bruno diz que chegou a ser noviço na Inglaterra.

         – Quando cheguei ao Brasil, fui direto viver com os beneditinos. Queria ser pelo menos irmão leigo. O Brasil é muito cheio de macumba, eu sou de exu e sei que não presto. Então, achei melhor me proteger.

          Só que, dessa vez, não teria sido uma moça, mas uma senhora casada quem o tirou do claustro.

          – Quando João Cabral ficou nas últimas, Marly me pediu para ir para lá ajudá-la. Por isso, deixei o mosteiro. Também não me interessei por aquela Teologia da Libertação, que chamei de CNBB do B. O que um sujeito como eu faria lá? – questiona.

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