Banquete de ossos (maio/1998) – Bruno Tolentino

TOLENTINO, Bruno. “Banquete de ossos”. In: Bravo! n. 8, maio/1998, pp. 18-20

A poética modernista é subproduto de subpoetas

          À beira das comemorações do Manifesto Antropófago, dentre os mais supervalorizados subprodutos paulistanos, meditemos no pobre estado de nossa linguagem. Passemos sobre a confusão de nossas idéias, coisa herdada dos subprodutos do neopositivismo oitocentesco, já que, no primeiro caso, o problema é bem mais recente, produzido para nós para uso e abuso doméstico e, portanto, reparável por uma difícil, mas urgente, restauração da língua que nos foi legada pelo colonizador à sua dignidade original, isto é, lusitana com muita honra! Não somos uma variante afro-cafuza da lusofonia, nosso dilema não é “tupi or not tupi”, é, ainda e sempre, ser ou não ser o que de fato somos: uma grande e sempre por si mesma renovada civilização lusófona.

          Ora, o que nos aconteceu desde a Semana de Arte Baderna de 1922? A instauração de uma sensibilidade mais próxima de nossa realidade nacional, dizem uns, repetem muitos e aquiescem todos… Pois pergunto-me eu: o quão distante estivemos dela durante séculos, de Gregório a Gonzaga, de Cláudio Manuel a Lima Barreto, de Varela a Alphonsus, do Condor Baiano ao Anjo Negro, de Alencar a Nabuco, de Bilac a Euclydes? Ou ainda, numa equação que sublinha uma tão impressionante cornucópia: de Gonçalves Dias a Machado de Assis pairávamos de fato assim tão longe de nós mesmos? Não se leria antes em tão rica e diversificada linhagem aquela pujança do espírito que marca e define as civilizações em imperturbável ascensão? Que necessidade tão premente exigiria uma alteração radical dos recursos acumulados por um idioma que nunca dantes se curvara ao suposto enriquecimento das reduções diletantes ou dialetais? Que grande contribuição à identidade de um povo deveria sua erupção ao exotismo de uma “nova” linguagem, a nascer (sabe-se lá como) de uma ruptura com a saudável e sempre mutável perenidade da língua portuguesa? Aos alvores deste século que se acaba na perplexidade, que haveria de assim tão inoperante no idioma que nos legaram ninguém menos que Camões, Antero, Eça, Pessoa? Que riqueza inédita em sua “nova brasilidade” sairia da barriga de Macunaíma para estrangular em suas dobras intestinais uma visão do homem destas e doutras bandas a luzir sem jaça na complexa limpidez de um Brás Cubas? Tão vivo quanto incontornável segue sendo este último, ao contrário daquele envelhecido adolescente, o “herói” sem nenhum caráter, mas cada vez com menos graça. Indispensável ao nosso entendimento de nós mesmos enquanto instâncias particulares de universais irredutíveis não é o frankenstein do “tio Mário”, é até hoje aquele defunto “d’antanho”…

          Que nos revelam da alma humana as cambalhotas de 22 que a linguagem ordenada e cristalina do Conselheiro Aires não nos tivesse dado a perceber entre Esaú e Jacó? Houve um tempo nem tão distante em que nosso idioma falava com a mesma precisão e limpeza à inteligência da raça nos dois lados do Atlântico, ou o Conselheiro Acácio não se teria tornado por cá um símbolo do que a raça inteira tem de mais risível;  em câmbio, e para muita hilariedade lusa, retaliamos com aquele nosso insubstituível símbolo da pátria, mania do engodo, o homem que sabia javanês… Este, é certo, já mal sabe hoje o português, mas, por isso mesmo, é por cá mais que nunca “atual”, multimídia, vanguardeiro, roqueiro, etc. Em plena tragicomédia perguntemo-nos que língua renovada, que linguagem “nova” – então, agora ou quando seja – alcançaria falar mais fundo que as ambigüidades de Dom Casmurro ou de Dona Jucunda, as alucinações de Quincas Borba ou de Simão Bacamarte?

          Não, tragicamente nos apalhaçamos em 22 no vão intuito de dar o salto que afinal nem demos nem precisávamos dar: o salto mortal (ou letal?) no trapézio dos andradóides não nos levou mais alto do que andáramos até então. Quando, na década redentora (e eminentemente mineiro-nordestina) de 30, surgia-nos um grande exegeta da condição humana, um autor do porte do criador da Cantiga de Esponsais, constatávamos que o prosador em São Bernardo e Caetés era um estilista da estirpe, senão mesmo da altura de… Machado, quem diria, do velho e superado Bruxo do Cosme Velho! Alheio à sua recente libertação dos arcaicos grilhões do idioma colonizador, nosso maior romancista deste século era e permanece sendo o único par natural do maior de todos.. E que deve a grandeza de Graciliano à suposta, totalmente acadêmica “revolução” marioswaldina da linguagem? Que sutil novidade o afinaria à baraguinagem de Macunamário ou Serafim-fi-rim-fim, antes que aos derrapantes olhos da Capitu, à genealogia moral dos Lobo Neves, à púrpura imperial do desgraçado Rubião? Às portas do Terceiro Milênio Cristão, não vejo como seguir atrelando nossas luzes e letras à herança falida de um breve momento, de um mero movimento que nunca passou de um arrepio na epiderme sadia de uma tradição tão sólida quanto ignorada.
Que nos legou a especiosidade do carnaval paulistano dos filhotes da burguesia cafeeira de 22 foi uma “nova” e já surrada receita de importações, todas pequeninhas, da altura dos Marinettis, Cendrars, Jacobs e Duhamels que a Europa mal notou, logo esqueceu. O que o Velho Mundo não esqueceria seriam os grandes autores que a rapaziada que rebolou no Teatro Municipal não conhecia nem viria a descobrir a tempo de moderar o próprio ridículo. Onde estão os jacarés e papagaios que os jeca partout de então se propunham a caçar por ali, pra mó d’afugentá o fantasma colonial do Lusíada? Não estão é onde pairam para sempre os Sonetos a Orfeu e as Elegias de Duíno, a despontar juntos precisamente em 1922, nem onde doem ainda as agudezas (?) do Ulisses ou as aporias da Waste Land, que, naquele mesmo ano, via a luz sombria numa Europa presa de seu mais agudo momento de dilaceramento espiritual. No klu-klux-clã do jabuti de losango cáqui não se ouviria falar de nada daquilo por muitíssimo tempo…

          O ruidoso abalo símio de 1922 foi um frisson nosso todo particular, de natureza, fôlego e alcance decididamente paroquiais. Nada nos deu de verdadeiramente universal que enriquecesse a língua que se queria subitamente “autofágica” já que o banquete devorou sobretudo nossa gramática. Pouco se acrescentou à “realidade” além de uma amputação gradual das regências verbais, entre outros gracejos; fenômenos que constituiriam um escândalo em qualquer língua, tendo por hábito levar a sério sua estrutura natural, vêm desde então embotando a nossa com um sans gêne jamais visto alhures. Presentinho de grego dos desossados balbucios populistas dos rapazes de 22… Resta que, à exceção de Murilo, como do Bandeira de Libertinagem e Estrela da Manhã, nossa grande lírica deste século definitivamente não se fez a partir de receitas modernistas. Que deve ao heureca dos andradóides a gema do gênio das Alterosas, aquele Drummond que é nosso único Andrade verdadeiramente grande? Cada dia mais certo de que ficara “chato ser moderno”, nada há de lembrar a “Semana da Ruptura” na melhor arte não só de Drummond mas de todo o Brasil. O quarteto “Viagem/Vaga música/Mar absoluto/Retrato Natural” certamente nada deve à aventura antropo-sei-lá-quantas… E menos ainda aquele cume da história revisitada pela lira, o Romanceiro da Inconfidência. Em que pese o esforço de Alfredo Bosi para aproximá-la da verborragia liricofágica de um Mário caixeiro-via-jante em busca de legitimidade poética, Cecília Meireles nada tem a ver com a segunda gritaria do Ipiranga. Nossa maior e mais original escritora permaneceria graciosamente ancorada ao idioma que Portugal nos emprestou para que o enriquecêssemos com os acentos de nossa dor inconfundivelmente musical desde Dom Dinis. Nem os sonetos de toda época, na mão de Mestre Bandeira, estiveram jamais aquém dessa filiação magnificamente reafirmada. E se Jorge de Lima, entre tantos oportunísticos cromos “afro”, nos daria também aquela jóia afrodisíaca que é sua Nega Fulô, seriam Miraceli e seu Livro de Sonetos a afirmar definitivamente sua grandeza. Que ecoa ali da barulheira de um quarto de século antes? Nada.

          Digamo-lo de uma vez: a “poética modernista” foi o subproduto de subpoetas, uma receita de “liberdade” que se resumia à incompetência formal mais libertária e culmina hoje num relaxamento idiomático de cunho improvisatório, sob selo e sanção (believe it or not!) universitário. E foram aqueles dois minimestres de tantas levianas inconseqüências os pais, os parteiros e padrinhos do renitente monstrengo. Enquanto cultores da arte da poesia foram meros ideólogos do verso, do pior verso que se fez e se continua a fazer entre nós. O que Wystan Auden chamava de “imitation of poetry” recebeu assim um inesperado e acabrunhante brevet d’honnheur. Voa-se desde então em parafuso, ao rés-do-chão, em matéria de técnica, de carpintaria, de operação formal. O vale-tudo instaurado em 22 e, sob a pétrea égide dos empreiteiros culturais da USP, alastrado à totalidade de nossa academia, tornou-se pro domo sua uma aberração institucional, tão ruidosa quanto oca e autoritária. O “espírito de 22” é uma coleção de fantasmas empalhados no Anhangabaú, mas insiste a golpes de matraca em impor-se a todo verdadeiro espírito de crítica e criação. A decorrente desordem intelectual, a “miséria de uma linguagem” de que já se queixava Merquior em 1962, encontra assim sua justificativa oficial no uso de categorias do pensamento não apenas falidas, mas falidas sem ter dado fruto algum de monta: uma esterilidade palavrosa, uma soltura intestinal da emoção mais primária, tem hoje lugar de honra entre as manifestações da mais banal “modernidade”, entre vanguardeira e popularesca. Resultado: o jovem de hoje, no Brasil de Gonçalves Dias e Manuel Bandeira, esses sumos artífices do verso nativo, não sabe o que é número, medida, rima, ritmo, cesura ou melopéia, não tem noção alguma do que seja num texto a intrínseca harmonia verbal interna. O “novo” é o ferro-velho que sobrou do desastre estilístico, “antropofágico”, dos maestrotes de 22. Sorte mesmo teve o Bispo Sardinha, que não ficou para ver a sobremesa!

Um pensamento sobre “Banquete de ossos (maio/1998) – Bruno Tolentino

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