Anulaçao & Outros Reparos (1998): Primeira Parte: Transfiguração

Aqui, de pé no tempo em que me perco
em vão movendo mãos que a morte junta,
assombro-me de tudo quanto esqueço
para sempre e sem lágrima nenhuma.

E esse sangue domado, essa permuta
de mim por mim, daquele muro em beco,
da sombra em sombra nova ou desse mesmo
eclipse do sonho em seiva surda,

não sei já se me dóem, se apenas rangem
nessa tremura que de amor se perde,
âncora solta entre as marés do sangue –

recordado, talvez, mas tão de leve
que à pele quase intacta do instante
embalo meu espanto, e ele adormece.

[Rio de Janeiro, 23 de julho de 1959]

Discuta este texto!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s