A vida em estado bruto (2007), por Érico Nogueira (O Globo)

NOGUEIRA, Érico. “A vida em estado bruto”. In: O Globo, 13 de outubro de 2007

          Anunciou-se nesta última terça-feira, 21/08/2007, que A imitação do amanhecer, de Bruno Tolentino (1940-2007), era a obra vencedora do prêmio Jabuti de 2006 na categoria poesia. O prêmio, dentre os mais importantes do mundo lusófono, por si só seria índice do reconhecimento público que a obra do poeta, desde sua estréia, em 1964, com Anulação & outros reparos, vem recebendo da crítica mais atenta, que fez dele o único a ganhar por três vezes, e na mesma categoria, o referido prêmio: o de 1994 com As horas de Katharina, o de 2002 com O mundo como idéia e, finalmente, com A imitação do amanhecer, o de 2006.

          A despeito, porém, da aparente consagração, sua obra permanece ainda, em larga escala, desconhecida. E não nos referimos aqui, certamente, ao grande público leitor de best sellers, mas àquele círculo mais ou menos restrito, universitário ou não, de leitores sobretudo de poesia. Dentro deste mesmo círculo, pois, a obra de Tolentino, que conta publicações escritas diretamente em francês (Le vrai le vain, 1971) e inglês (About the hunt, 1979), permanece, sem explicação razoável, desconhecida. Ora, por quê?

O boicote

          Desde que voltou definitivamente ao Brasil, no início dos anos 90, Tolentino deixou sempre clara sua posição contrária à lamentável situação, não propriamente da poesia brasileira, mas do discurso público, veiculado pela imprensa e pelas universidades, sobre a mesma poesia. Tal posição, cuja expressão mais clara encontramos no livro-polêmica Os sapos de ontem (1995), diagnosticava o que bem se poderia chamar de “dirigismo cultural”: dominadas imprensa e universidades por uma concepção unívoca, solidária do marxismo e do formalismo russo, do que fosse a poesia, tentava-se vetar a possibilidade mesma do exercício público de vozes, como a de Tolentino, com fundas raízes na antiga e moderna tradição, não apenas luso-brasileira, mas ocidental. Como prova cabal do diagnóstico, lembremos a vergonhosa tentativa de boicote público encabeçada por Augusto de Campos contra o mesmo Tolentino: depois de travarem na imprensa acirrada polêmica sobre assunto exclusivamente poético, Augusto de Campos, recorrendo a expedientes políticos, recolheu e fez publicar uma série de assinaturas de artistas e intelectuais que pediam publicamente aos órgãos de imprensa que não mais publicassem as opiniões de Tolentino. Por coincidência nada casual e muito irônica, a maioria desses artistas e intelectuais era gente que, durante o período militar, militava contra a censura…

A obra

          Além do boicote, há outra coisa que dificulta, possivelmente, a assimilação da obra de Tolentino: sua dificuldade interna, oriunda do profícuo diálogo entre o poeta e boa parte da tradição ocidental. Pelo inusitado tratamento que confere às formas clássicas, pela qualidade filosófica do assunto dos seus livros, e pela amplitude de suas referências literárias, a obra do poeta aparece, nas letras nacionais, como literalmente extraordinária, única e sem precedentes. Se nos for possível resumir em poucas palavras sua poética – ou, como preferia chamar-lhe, sua “filosofia da forma” –, diremos que o autor, grosso modo, parte da constatação de uma incongruência, de uma desproporção entre, de um lado, o mundo real dos sentidos, do outro o mundo intelectual das formas. Dito de outro modo, à base de sua poesia se encontra o descompasso entre emoção e razão, vida e poema, que não é senão a re-elaboração, muito pessoal, da antiga (e já grega) dicotomia entre natureza e arte. A questão de Tolentino é semelhante à de Platão: se o mundo dos sentidos, onde a vida transcorre, está em perpétuo movimento, como é que um qualquer construto intelectual, arte, filosofia ou ciência que seja, pode apreendê-lo, se todo construto se caracteriza por certa fixidez? Ou seja: o que, afinal, as construções mentais preservam das coisas e situações reais que representam? Ou antes: que correspondência pode haver entre as refinadas elaborações da poesia e a vida em estado bruto que, para Tolentino, estimula essas elaborações? Como vemos, a questão não é fácil, e traz milênios de história atrás de si. Tanto mais quanto existe sempre a possibilidade, evidentemente, de não existir qualquer correspondência satisfatória entre os pólos já mencionados.

A luz no fim do túnel

          A aurora é o momento em que luz e sombra de tal modo estão fundidas que não se consegue separá-las. É transitória, efêmera, fugaz, mas nem por isto é menos certa, real, concreta. A imagem da aurora, pois, representa para Tolentino a única correspondência possível entre vida e arte, emoção e razão, realidade e conceito. No breve espaço entre noite e dia, quando sombra e luz dão uma só e mesma impressão de passageira fusão de contrários, de provisória solução de conflitos, é que se encontra a possibilidade de que as construções da mente humana façam jus às realidades que pretendem reproduzir, ou que a elaboração conceitual ou artística não obscureça a vida que se lhe oferece. Da parte do poeta (ou da persona poética), isto implica uma atitude de vigilância contínua, de inspeção permanente da atividade criadora, a fim de jamais esquecer que a arte, como artifício que é, não pode, em última instância, substituir o real (e porque não pode substituí-lo, nem tampouco lhe cabe abandoná-lo). Precisamente contra esta atitude escapista, que Tolentino denuncia como a mazela por excelência da arte do nosso tempo, é que se insurge então A imitação do amanhecer, suma poética do autor.

O novo tempo

          Os 538 sonetos alexandrinos que compõem A imitação do amanhecer não têm outra obsessão: como a arte imita a vida? Coroação de uma vida consagrada à arte, sirva este livro, bem como o prêmio que o põe em evidência, para instituir um novo tempo nas letras nacionais: um tempo em que as obras não sejam substituídas pelo que, bem ou mal, a favor ou contra, se diz (ou se pensa) delas. Em que sejam respeitadas pelo que poeticamente executam, não pelo que ideologicamente supõem. Então Bruno Tolentino, sem dúvida um dos melhores e mais ambiciosos poetas da língua, terá certamente o espaço que agora, logo após a sua morte, já começa a conquistar.

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