A imitação do amanhecer (2006): III. 149, III. 95, I. 8, III. 103-116 & III. 150 (O Cervo da Lapônia)

(O Cervo da Lapônia)

III. 149

Carregamos conosco, cada qual a seu modo,
uma paisagem harmonizada, uma cidade
que existe e não existe, como a realidade…
E tudo gira e vai girando e volta e roda
e não toca nesse ponto extático: é que o todo
e as partes não se encontram e andamos na verdade
cada qual em seu reino hipotético. A grade
do teu parque encantado onde flutuava o tordo
e vinha a lua e enfeitiçava o limoeiro,
fez de mim para sempre o doce prisioneiro
dos teus oásis, contornados, limitados,
Alexandria, por aqueles quatro lados:
do deserto, do mar, do amor e dos canteiros
da perfeição, cidade alada, inconsolados.

III. 95

Vinte anos depois revelaram-lhe o erro:
que o Tzarevitch, que se presumira morto,
sobrevivera e ia voltar! “Ah, mas e o corpo
que eu sepultei, que embalsamei no desespero?
“,
geme a rainha-mãe. “Que fazer desse enterro
de vinte anos de paixão? Não, esse outro,
ou qualquer outro vindo agora ao meu encontro,
eu não conheço ou reconheço e não o quero!
Eu tenho um morto que me ocupa o coração…

A cena impressionante da tragédia de Schiller,
a amor da dor total como consolação,
entendo-o muito bem: eu não quero o elixir,
o milagre tampouco, quero a minha paixão
póstuma! Dar-lhe-ei tudo o que me exigir!

I. 8

Amei Alexandria apaixonadamente.
Foi naquela cidade que amei como ninguém,
como se ama a verdade e a ilusão quando vêm
a dar quase no mesmo: um coração consente
qualquer ambigüidade à alma quando tem,
como se diz, a vida toda pela frente…
À mais notória condição inconseqüente
que um jovem coração cultiva, eu dei também
como o barco à deriva, a quilha sempre pronta
ao naufrágio ideal… Mas não foi à cidade
que eu aportei um dia, a jovem alma tonta,
o corpo amado ao lado: foi àquela metade
do eterno compartido, a jóia da vaidade,
doce como um colar de dois, conta por conta…

III. 103

À distância, isolado pela perspectiva
da agonia solene que é a última luz polar,
vejo cada vez mais o vulto singular
de um grande cervo branco: sua figura altiva
contraposta a um poente maior que tudo, é a viva
anunciação da hora em que a estrela no ar
virá guardar a imensidão de que é cativa.
Aparição furtiva da angústia de durar,
aquele cervo branco, uma estátua sozinha
ante a luz arruinada, surgiu-me colossal
e arrancou minha vida a uma pose daninha
de narciso suicida… Olhai-o: um animal
cuja consolação ante a hora indecisa
é a graça escultural segue a luz que agoniza…

III, 104

Lento, movendo na luz branca a majestade,
a elegância do vulto, o cervo da Lapônia
cruza o fim do verão polar como a lacônica
exclamação crepuscular da eternidade.
Já não cabe mover-se com a mesma agilidade,
desapetece-lhe correr na luz agônica
que empalidece tão depressa e desmorona-
se-lhe entre a coroa agreste e o pinheiral. É tarde;
a lua vai morrer e nascer tantas vezes
da imensa solidão tentacular agora,
que o cervo imobiliza-se para a grande demora
na treva elementar, a habitação dos deuses;
e, lento, à contraluz, é uma estátua de cinza
excruciante: a última pétala agoniza.

III. 105

A derradeira aparição num corredor
esguio, de cristal opalescente e frio,
recebe a escuridão de que há de vir um rio
repentino – a cascata boreal da cor
vertiginosa da imaginação, do amor,
da memória doente: vem como um desvario,
aquele rio ardente, e logra sobrepor
seu burburinho a um céu multicor e vazio.
O grande cervo então contempla aquele teto
em alucinação, com a mesma indiferença
ou a mesma altivez – e permanece ereto
como o iceberg indivisível que a alma pensa
aparentar-se a ela, segundo a poetisa.
O cervo branco, o coração do que agoniza.

III. 106

Penso em Elizabeth Bishop diante
de uma visão: seu iceberg imaginário,
o coração de uma obra-prima. É que o contrário
da significação formal é sempre o instante
em que a mente colide com o mundo flutuante
do imenso e, confrontada a um vazio tão vário,
imita a alma, Alexandria, o corolário
de cuja embriaguez é sempre algum gigante.
Cervantes viu moinhos, ela viu a montanha
flutuando sozinha, eu via de repente,
ante uma hemorragia de luz, a forma estranha
de uma estátua de êxtase e de cinza, imponente,
fixa e, como a alma, “ereta e indivisa
como ela a descreveu: a alma ante o que agoniza.

III. 107

Um ser assim, Alexandria, tão distante
de ti, da tua luz histriônica, é grave,
é nobre, é um monumento ao silêncio em que a ave
do sensível não pousa: um cervo eqüidistante
do eterno e da euforia carnal, naquele instante,
à luz setentrional, sugeria-me a chave
que abre o cofre de neve do mistério ao conclave
da alma e do inefável; a imagem do amante
diante da hora estéril, a estela funeral,
lembrava com efeito Lemminkäinen no umbral
do silêncio – ocupava sozinho o anfiteatro
vazio de repente à sua volta… O ingrato
ofício de durar e calar não precisa
de outro modelo além da estátua que agoniza.

III. 108

Vi-o em Karesuando essa única vez,
numa tarde de vento, na dilaceração
contínua das cortinas da luz; a fixidez
quase marmórea contrastava-o à profusão
do horizonte movendo-se em torno dele e não
parecia depender mais da terra; talvez
porque tudo mudava rapidamente e o chão
lhe escapava, eu pensava em Lear, um dos reis
que a realeza traíra tragicamente, sem
acordá-lo de todo ou de vez… Se movia
lentamente a cabeça à contraluz, o dia,
como o corcel se espanta de encontro ao que lhe vem
no escuro, desertava-o, vestia-o da camisa
de fogo hercúleo da grandeza que agoniza.

III. 109

Eu o olhava de longe sob um sol que caía
como a lâmina lenta de alguma guilhotina
a meio ar sobre uma nuca que se inclina:
opunha-lhe a coroa brusca com galhardia
e eu pensava e voltava a pensar na agonia
interminável de Lear, sua menina
a balançar pelo pescoço na neblina…
A anos-luz das confusões de Alexandria,
o verão perecia e, se por alguns meses,
não voltaria aquele sol que punha a marca
sobre as carcaças da batalha, ele, o monarca,
perdia-o como se para sempre… Quantas vezes
revejo aquela cena! Numa luz imprecisa,
Lear virando lápide, Cordélia que agoniza…

III. 110

A palmeira-real, a que palma por palma
vi oscilar à luz crepuscular, ao vento,
à beira-mar de Alexandria, esse momento
me parecia mínima, derrisória ante a calma
daquele cervo imóvel ante o holocausto, o trauma,
a sucessão de tochas que perdia… Ao relento,
um archote de cinzas na escuridão da alma,
um animal renunciava ao movimento,
coisificava-se e sofria a olhos vistos,
aos olhos sempre metafóricos do ser:
a dor petrificante e muda de perder
trespassava-o e passava-o por todos os registros
da luz que o desertava. Cada vez mais concisa,
a alma faz-se marmórea quando o resto agoniza.

III. 111

Caía o vento, a ventania amainara;
se tudo se movia ainda febrilmente,
a galharia apenas de uma cabeça clara
erguia-se e baixava de um modo coerente
e voltava a se erguer, sempre tão lentamente
quanto o vazio na amplidão que se prepara
a renunciar à última tocha; um sol cadente,
cabeça decepada na ponta de uma vara
bárbara e triunfal, como uma reverência,
parecia baixar com uma lenta ironia
diante de um cervo reverenciando a urgência
da própria submissão; a um rito, Alexandria,
à lei que rege um rito ancestral: o que avisa
ao ser que tudo é luz porque tudo agoniza.

III. 112

Calávamo-nos todos; éramos cinco ou seis
e ninguém se atrevia a mover-se, a mudar
com o mais mínimo gesto o equilíbrio no ar
daquele instante intenso: o protesto dos reis,
o consenso dos mártires… Não havia talvez
em toda a Antigüidade mítica um lugar
em que tão claramente ardesse a lucidez
que há na melancolia, e se eu via a Lear
diante de Cordélia que morria, concedo
que me escapava o essencial: ou bem me engano,
ou não chegava a ver completamente o arcano
na eterna pertinência do rito, esse arremedo
cíclico de um instante primevo – o que divisa
a alma original em tudo o que agoniza.

III. 113

Um de nós murmurava alguma coisa assim
quando escutei dizer “Lemminkäinen…“, e a bela
sugestão desse nome desenhou-me a janela
a que se achega o homem, a alma nas mãos ao fim
da imolação do último ato. E um jardim
distante e intacto, indevassável como aquela
paisagem moral, apresentou-se a mim,
vi um cisne cantar e deixar Tuonela
por um jardim de Alexandria: o velho Egito,
um cisne e aquele cervo confundiam-se. Então
voltei a mim, tão perto daquele antigo rito,
do eterno sacrifício mítico, que o chão
como se me manchou sob os pés: a Artemisa
banhando-se no sangue do Ácteon que agoniza…

III. 114

Mas não – era o Cervo Real do Kalavala,
a vítima segundo a tradição local,
e era efetivamente cada vez mais igual
ao herói ante a adaga de uma luz que apunhala,
que o atraiçoaria rapidamente: a fala,
a última exclamação no cerimonial
de execução da hora acéfala – o punhal
na mão da treva – era um sol lívido, uma opala…
Tua fênix fria, Alexandria, a lua
segundo os rituais de uma mistagogia
em que embalsamas o que amas, toda a tua
parafernália escaravélhica de orgia
empalideceria de encontro àquela lisa,
limpa, nua altivez: aos pés do que agoniza.

III. 115

Tu não morres nem deixas morrer, tu não cessas
nem permites cessar, és toda um recomeço,
toda um processional por dentro ou pelo avesso,
acumulando-se, enxertando-se as cabeças
que decepas e dás como esmolas espessas
de sangue retocado às estátuas de gesso
de sucessões intermináveis… Se têm preço,
não têm destinação as estátuas acéfalas,
e é tudo uma vertigem, tudo um redemoinho
em tua eternidade de efeito e fantasia.
Ali não: na Lapônia em que um cervo sozinho
resume, enfrenta e abole a História, a noite fria,
a noite bate continência e soleniza
com uma estátua de cinza o instante que agoniza.

III. 116

Deixai-me entre esses dois extremos exemplares:
a dor elementar, de estela senciente,
de um grande cervo branco ante a noite iminente,
e a rosa itinerante de todos os lugares,
de todos os instantes de Alexandria… Os pares
perfeitos são opostos, e entre um deles, à frente
um sol como fantasma, atrás a luz cadente,
hei de durar sozinho enquanto tu durares,
ó labareda ao longe, ó cego atrás do lume,
ó vivo amor da viuvez como perfume,
ó limpa, ó lúcida altivez, ó cervo agora
e para sempre oposto à imitação da aurora
que o velho Egito helenizado diviniza!
Numa saudade é a eternidade que agoniza.

III. 150

Adeus, cidade-signo, cidade-cicatriz,
cidade da saudade, imitação de mestre
e mentira do mármore, adeus: o que me deste
e perdeu-se bastou. Porque enfim fui feliz
e não hei de viver como quem contradiz
o melhor que foi seu. Adeus, cidade-peste,
eu vou viver contaminado do que reste.
Porque o amor, legado teu, é o meu país
e, como sabes bem, é sempre imperativo
o exílio do monarca: é urgente que a alma emigre.
Aceita, ó degredada augusta, ó irmã do tigre
que arranca um coração para mantê-lo vivo,
aceita o meu adeus sem lamúrias, alegre.
De uma alegria, é bem verdade, sem motivo.

Leitura de Bruno Tolentino em 2001, em versão prévia (apud Plataforma Para a Poesia)

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