A imitação do amanhecer (2006)

São Paulo: Globo, 2006

328 páginas

Narrativa em 538 sonetos alexandrinos escritos entre 1979 e 2004.

– 49º Prêmio Jabuti de Poesia de 2007 (post-mortem)

Conteúdo

  • Em Frontispício

I. As epifanias (andante spianato)

  • 1. Provavelmente porque o ser se intranqüiliza
  • 2. Nem tudo se desfaz, anda em tudo um resquício
  • 3. Há tempos que em seus sonhos já não revia mais
  • 4. À medida que foge a luz crepuscular
  • 5. Que fazer de uma rosa de areia, fugitiva
  • 6. Por que Alexandria? Como me hei de explicar
  • 7. Não, não faço sentido, eu sei, mas não importa
  • 8. Amei Alexandria apaixonadamente
  • 9. Perdão pela impudência, vou depressa demais!
  • 10. O número, ou medida, e a aparição do ser
  • 11. Voltarei a este assunto, na certa, esta lição
  • 12. Dividi-me entre elas, a cidade e a medida
  • 13. Se fossem só jogos de luz na placidez
  • 14. Porque é impossível, como inútil, conceber
  • 15. O que me faz cantar, no entanto, o que me espanta
  • 16. E assim, entre as paletas da luz misturadora
  • 17. Vamos atravessando, de surpresa em surpresa
  • 18. E escuro adentro, nas florestas musicais
  • 19. O esforço fabuloso que a alma doente faz
  • 20. Na velha embriaguez moral da criatura
  • 21. Mas perco o fio da meada, aquele enredo
  • 22. O tordo foi um pássaro, em toda a Antigüidade
  • 23. Alexandria é toda assim, semipagã
  • 24. Ah, como ardi por lá! Que êxtases tão graves
  • 25. Minha seara musical por esse chão
  • 26. Cidade-umbral da ambigüidade e do dilema
  • 27. Methinks certas coisas não se devem dizer
  • 28. Que enfim a condição da carne que se entrega
  • 29. E o fogo desse amor sob os teus céus acesos
  • 30. Recordarás, cidade-eco, um certo almoço
  • 31. Mas não nos apressemos tanto, que afinal
  • 32. Toda aquela manhã ele andara sisudo
  • 33. E revejo as violetas donas desse lugar
  • 34. Mas não falo em violetas por casualidade
  • 35. Até então eu não me havia dado conta
  • 36. Lutava com o sotaque nórdico, tenaz
  • 37. Eu mal sabia o que fazer! Via o que ouvia
  • 38. Não me seria justo, ou plausível, dizer
  • 39. Eu, que o escutava ler, na pauta inconfundível
  • 40. A sombra acumulada pelo sol declinante
  • 41. E ele lia e eu seguia-o aonde vai cada par
  • 42. Páris, ó meu irmão, também foste o joguete
  • 43. É lenda, é pura lenda e só lenda, o universo
  • 44. Se aquela luz, no entanto, emprestasse o pincel
  • 45. Desisto de tentar pintar a plenitude
  • 46. Tínhamos deparado, ao dobrar de uma esquina
  • 47. E agora via-o abri-lo com toda a intensidade
  • 48. Sorria quando interrogado, e alguma vez
  • 49. E sinto-me que hesito: mal começada a história
  • 50. O sol ia caindo entre as mãos da folhagem
  • 51. Uma voz que sofria… Sofríamos os dois
  • 52. Há uma consolação então, uma modorra
  • 53. E ele lia, lutava, salpicado de sol
  • 54. Pobre do moço, Alexandria tentadora!
  • 55. Mas o sonâmbulo marmóreo não me ouvia
  • 56. Ah, tanto fora até então instintual
  • 57. Era uma tarde ensolarada, embranquecida
  • 58. Como a novena bruscamente interrompida
  • 59. Os holofotes do farol tentaclar
  • 60. Ficou-me dessa reviravolta em pleno ar
  • 61. O tronco a que se abraça a grácil trepadeira
  • 62. Fui descendo dos píncaros como se uma vitória
  • 63. Há sempre no estertor de qualquer paroxismo
  • 64. Se eu me deixei cair tantas vezes inteiro
  • 65. Juntos por cada rua em que Cavafy andara
  • 66. Rosto nenhum, no entanto, valia o que a meu lado
  • 67. Ora (direis), anjos de luz! Ah, mas leitor
  • 68. Dizer do ser, em grego antigo, que é o aroma
  • 69. Onde anda agora a perfeição que andava unida
  • 70. O amor é uma parábola, a instante tradução
  • 71. Sempre soubeste, Alexandria, o quanto a jóia
  • 72. Voltamos tarde àquele quarto em que a corola
  • 73. Cidade-esfinge, cafetina de um cortejo
  • 74. Teu erotismo milenar tumultuado
  • 75. Daquela vez Aquiles talvez tivesse (tinha!)
  • 76. Se o teu farol, essa altitude legendária
  • 77. Enfim, compondo aos seus os infinitos céleres
  • 78. Mas não, não te enterneças ao pensar no indizível
  • 79. Se os anos todos em que fui chegando perto
  • 80. Mas se eu pensar no amor, se eu repensar o instante
  • 81. Morre tão lentamente a euforia da festa!
  • 82. Mas que razão se tem de acreditar na vida
  • 83. A essas alturas já meu corpo ia encantado
  • 84. Eu mal via o que via, ou não via mais nada
  • 85. Colhi o pomo das Hespérides à vinha
  • 86. Recordo tudo assim: cascata a cascalhar
  • 87. Subindo essa avenida onde caía o beijo
  • 88. Meu amor, meu jardim, meu clarim chamador
  • 89. De quem seria aquele busto tão sisudo
  • 90. A função miserável de existir, que não toca
  • 91. Tremendo de arriscar-me aqui contra a razão
  • 92. Como um belo tornado a emoção vitaliza
  • 93. A nudez de um aroma, o halo de um perfume
  • 94. Nus como Deus os fez, os dois breves instantes
  • 95. No entanto, esse instantâneo é o único retrato
  • 96. Uma guirlanda delicada de açucenas
  • 97. A reverberação dessa cena que enlaça
  • 98. Eu quis levar, eu quis pregar uma avenida
  • 99. Fiquei cantando a minha pálida avenida
  • 100. Um lugar… Um lugar e um instante abraçados
  • 101. Ó multiforme aparição, ó companheira
  • 102. Não pude anoitecer tampouco e, se permito
  • 103. Bem sabes tu, que tudo fias e desfias
  • 104. Um gemido não tem, ou não alcança ter
  • 105. Uma visão, ainda ao mais limpo dos olhares
  • 106. Nesse lugar, nessa avenida do esplendor
  • 107. Ah, meu besouro aprisionado nas vitrinas
  • 108. Foi a música, eu sei, do que há de mais breve
  • 109. Canta, meu coração, meu artefato frio
  • 110. E desde então o coração fez-se-me assim
  • 111. Ao mineralizar-se-me a vida na veia
  • 112. Tu, que plantaste essa ilusão no tempo afora
  • 113. Tu, que imitaste à perfeição aquela flora
  • 114. Se passei dos cinqüenta e das três da manhã
  • 115. Dele não tive mais que um vago refrigério
  • 116. A jovialidade imanente no canto
  • 117. E eis que à luz da eternidade em que caminha
  • 118. Ah, o sangue! Ah, o incêndio! A assombração do fogo
  • 119. Observa esse pavão vermelho, hemorragia
  • 120. O que sofre num corpo é o sangue que resvala
  • 121. E eu vou colhendo as minhas flores de vitral
  • 122. A distância compõe uma solenidade
  • 123. Para cantar, para aceitar que tu prendesses
  • 124. Mas a tensão dessa esperança é monocorde
  • 125. Canto assim mesmo a profusão do que foi meu
  • 126. Ah, fantasia… Se me esquecia de lembrar
  • 127. Entraste num cristal? Cristalizado estás
  • 128. Consolação que o canto tece, és parecida
  • 129. O que tentas fazer desse artifício duro
  • 130. Sabedor de que o custo de cada hesitação
  • 131. O amontoamento das visões à luz que finda
  • 132. Não, não se trata de uma seleção apenas
  • 133. Essa vinheta, o que ficou daquele dia
  • 134. Nem a noção de louça é um capricho da Musa
  • 135. Vejo-a de pé, brandindo em vão um guardanapo
  • 136. Tão esplêndida agora é essa cena banal
  • 137. O prazer, o prazer… Anunciação do ocaso
  • 138. O pássaro mecânico, o prodígio de mola
  • 139. Não cabe duvidar: em tua apologética
  • 140. Glória à dança do eterno no baile temporal
  • 141. Não me anima a ambição de embalsamar-te a vida
  • 142. Essa coruja sabe, e sabes muito bem
  • 143. E é assim, e não por ter a ambição de exumar-te
  • 144. Éramos o eqüilátero, tu e esse par de amantes
  • 145. Que mais dizer? Que atravessamos por acaso
  • 146. Se eu tinha todo um vestiário, um manancial
  • 147. Sua fidelidade ao que morre era intensa
  • 148. Nunca deixou de lado uma melancolia
  • 149. Era um alexandrino por fastio e ciência
  • 150. Ao deixar este mundo como uma luz se apaga
  • 151. Quantas vezes meus olhos rolavam (como agora)
  • 152. Tinha a fronte lunar… Espécie de clareira
  • 153. Ah, era o meu delírio mais íntimo e mais grave!
  • 154. Inútil insistir, a coisa é incompreensível
  • 155. Como tu sabes muito bem… Em que calçada
  • 156. Ó susto da beleza, a milésima vez
  • 157. Que significa, na precária economia
  • 158. Mas foi aquela queda, de resto pontual
  • 159. O jovem Julian Green, noutra terra distante
  • 160. Eu, no entanto, deixei-me crucificar sem pejo
  • 161. Foi-se-me a voz agora, desviou-se a canção
  • 162. Quantas vezes, canção, confundiste os dois textos
  • 163. Toca a fronte lunar, balbucia no vento
  • 164. Transfigurar-se e ser a mesma, à diferença
  • 165. Mas já agora não sei… Fico a pensar nas horas
  • 166. Foi tudo exaltação. Se vale a pena agora
  • 167. Minucioso, com estes fios de um pincel
  • 168. São as marés do teu verão, ó espuma fria
  • 169. Surge sempre do fundo vazio: do oco
  • 170. Foram dias estranhos, luz na periferia
  • 171. Como a catarse que resolve uma tensão
  • 172. Alguns instantes antes passara a mariposa
  • 173. Em silêncio medíamos juntos, num olhar
  • 174. Escapávamos a esse lugar e, de repente
  • 175. Tratamos de esquivá-la: como dar importância
  • 176. Mudavas o teu ar como quem despe e atira
  • 177. O que nos davas a entender, ó bruxa na área
  • 178. Mas que importa à alegria dos corpos o colosso
  • 179. Recordo, ao pé do Etna, alguns anos depois
  • 180. Pois veio um vento de rapina, anúncio urgente
  • 181. Todo verão tem seus desastres, suas chuvas
  • 182. Nós, encharcados novamente pelo orvalho
  • 183. Tem os cheiros do amor certo leito desfeito
  • 184. Ah, doce indecisão das delícias que dão
  • 185. Kom al-Shugafa, as catabumcas de Adriano
  • 186. Praticamente em pânico, insistia em falar
  • 187. Se não descemos nesse dia alguns degraus
  • 188. Entramos, isso sim, e desde aquele dia
  • 189. Vale dizer que suspeitamos na medula
  • 190. Mas foi então, como que à margem desse instante
  • 191. Íamos juntos, duas asas e um veleiro
  • 192. Se anos depois ainda me voltam essas esquinas
  • 193. Que mais dizer? Que a vida toda é uma fumaça

II. As antífonas (largo con variazioni)

  • 1. Vamos de encontro ao sol. Vai-se filtrando a fina
  • 2. E toca meditar agora, não apenas
  • 3. O Oriente propõe e vive de um anelo
  • 4. Mas tua tentação maior vem do Ocidente
  • 5. Pensativa, curvada sobre o tanque do instante
  • 6. No fim das contas e das voltas há o colar
  • 7. E conta a conta vais, de minuto em minuto
  • 8. E a vaidade da História é toda assim: encosta-se
  • 9. Herdaste a tentação de uma escatologia
  • 10. Foi em ti que eu colhi a flor daquele enlace
  • 11. E a História é isso, um recobrar-se à contraluz
  • 12. Seria grego o teu perfil, hieroglífica
  • 13. Não a inventaste, apoderaste-te da cena
  • 14. E vais durando, ó penitente, ó redentora
  • 15. E todos os papéis são teus! Os teus papiros
  • 16. E o mocho que baixou do escuro atrás do rato
  • 17. Fica um terror: de que ao final, quando apagarem
  • 18. … Que fique o ser tam quam non esset. A obsessão
  • 19. É o lamento que dura, a dourada elegia
  • 20. Meu monumento funerário ao velho Orfeu
  • 21. E se é a Orfeu que faz apelo essa paixão
  • 22. E o erotismo enquanto ponte cognoscente
  • 23. O Ocidente se fez de abraçar a agonia
  • 24. É de espantar que a Cruz e tu surgissem juntas
  • 25. Penso na estranha cena que propõe Bonnefoy
  • 26. É na folha que murcha e cai, imperceptível
  • 27. Para alcançar a realidade a alma não tem
  • 28. Atravessou-me de alamedas transversais
  • 29. Levou-me ao paradoxo, à justaposição
  • 30. Nela foi dar a encosta de uma certa colina
  • 31. É possível que a vida seja de fato o espaço
  • 32. A velha maga oblíqua não nega, desconfia
  • 33. Há um paradoxo estéril que imita a lucidez
  • 34. Era quase um menino então, andava perto
  • 35. Seguir-se-iam os anos, vagarosos primeiro
  • 36. A um rodopio, a um patamar de escadaria
  • 37. Dei com meu Pégaso nos céus insustentáveis
  • 38. As promessas do número e os mistérios carnais
  • 39. Melhor ainda, será viva  atua voz!
  • 40. Assim me aconteceu e assim fiz eu… Mal pude
  • 41. Íamos represados em mantos e presilhas
  • 42. A rosa-do-deserto, esse redemoinho
  • 43. O abismo nos desertos atém-se às dimensões
  • 44. Talvez o olhar perceba uns borbulhos de pérola
  • 45. Se o abismo num deserto é bidimensional
  • 46. Que fazer? Que dizer à alma exposta assim
  • 47. Dei de cara com o ser em sua plenitude
  • 48. Abandonei Orígenes ali mesmo, e Clemente
  • 49. Tentei, de lugar em lugar, a conversão
  • 50. Mas antes de chegar tão longe há que descer
  • 51. A descida no Cairo foi quase sem bagagem
  • 52. Mas basta de metáfora agora, que as mais vívidas
  • 53. De lugar em lugar, como uma impertinência
  • 54. Como nos figuramos o ser? Imaginemos
  • 55. A fragmentação no instante hipnotiza
  • 56. Sim, eu sei, do outro lado dessa redoma havia
  • 57. Sinto-me trespassado de solidariedade
  • 58. Fugimos, ou tentamos fugir, ao rodopio
  • 59. Força é convir a História como o réquiem de um erro
  • 60. Sem a melancolia dos instantes perfeitos
  • 61. Quem sabe o que isso quer dizer? Temos um medo
  • 62. Vive-se um intervalo contínuo, a hesitação
  • 63. Há algo mais que me ocorre a propósito disto
  • 64. Ninguém fará jamais da mera negação
  • 65. Na viuvez da História era uma vez um bem
  • 66. Os cães não cansam de ladrar… A caravana
  • 67. Ladram os cães à lua e a caravana afunda
  • 68. A História anda confusa… Pomposa e derrisória
  • 69. Só com o Sinal da Besta coroando-lhe a testa
  • 70. Tudo irá dar no ponto certo, Deus é amor
  • 71. Ora pro nobis tu, Santo Arcanjo Miguel
  • 72. Quanto à lenda do ser, a História, bastaria
  • 73. Mas que razão de ser senão o entendimento
  • 74. Marinhas esvoaçantes tornando-se a esmeralda
  • 75. Ó solidão, conjuração do elementar
  • 76. Mas são contrafações da lenda de durar
  • 77. Eu às vezes senti que aproximava o canto
  • 78. Ah, como as cataratas de nácar de um Niágara
  • 79. Passeio só agora, do lado extinto, rente
  • 80. Se levo a alma pela mão nesse passeio
  • 81. Se é circular esse passeio solitário
  • 82. Há multidões à volta de um realejo assim
  • 83. A alma, dizem, nasce cega… Iterativo
  • 84. Um gesto ante Bizâncio, uma estampa vazia
  • 85. Os afrescos puídos de Arezzo, a comoção
  • 86. Penso nos mármores caídos; na figura
  • 87. Penso na Cruz, naturalmente… E se a resisto
  • 88. Se há uma estátua no ser, é a sua negação
  • 89. Há que descer ao fundo da fantasmagoria
  • 90. O sátiro que ri… Dei com uma estátua assim
  • 91. Por mais que busque e me interrogue, não encontro
  • 92. É com efeito estranho que recorde tão pouco
  • 93. Não, não a via ainda, imaginava o mundo
  • 94. O ser é uma proposição; somos o esboço
  • 95. O ser que escolhe o exílio e anda solto no cosmos
  • 96. E ele pairava, demorava-se em meu peito
  • 97. E éramos vivos como os mármores de entalhe
  • 98. No entanto o peito quando cheio de prazer
  • 99. Existe sempre, estátua a estátua, nesse amor
  • 100. O ser que busca uma unidade entre os abraços
  • 101. Para que dizer mais? Ninguém chega a saber
  • 102. O amor maldito é a interrupção do perecível
  • 103. Mas era um par perfeito, por mais que fosse alheia
  • 104. Mortos ao mundo… Ou era o mundo que morria
  • 105. Brincávamos com a vida por entre os parapeitos
  • 106. Daqueles parapeitos debrucei-me primeiro
  • 107. Estátuas não se soltam nem saltam com a candura
  • 108. Meu amigo saltou com a elegância do artista
  • 109. Estátuas soltas, livres, estátuas tradutoras
  • 110. As estátuas do amor ensimesmado vão
  • 111. Arte é jogo de extremos, e todo amor à parte
  • 112. E ainda assim, permiti-me agora a confissão
  • 113. E eis-me agora curvado a amarrar o sapato
  • 114. Lugares, não pessoas, chora a harmonia lenta
  • 115. Ou um coração selvagem como o meu, errabundo
  • 116. Há uma geometria legítima a que alude
  • 117. Deixai-me alçar agora àquela nobre altura
  • 118. É sempre polifônica a harmonia possível
  • 119. Musa da sedução, cortesão do desastre
  • 120. Porque és interminável como aqueles turbantes
  • 121. Anunciavam o meio-dia e os minaretes
  • 122. Como a bruxa exemplar, a que Drummond prendera
  • 123. Mas a surpresa espavorida do morcego
  • 124. Os postigos da mente inundam, quando abertos
  • 125. Mas a bruxa que pára no alto, que visita
  • 126. Fechando O rei de Ásine, como um ônix ao fim
  • 127. E somos nós esses fantasmas beduínos
  • 128. Como o pião rodando só, como um pião
  • 129. O esforço de escapar constantemente ao fino
  • 130. Não sei dizer se a observei do ângulo certo
  • 131. Vinde rodopiar, recavalgar comigo
  • 132. Rumo à destinação sem-fim do bando alado
  • 133. Tua é a euforia agora da hora das saudades
  • 134. Esse arcanjo é terrível também e a solidão
  • 135. Mas conta, ó coração, a história interrompida
  • 136. Estou, ou se não estou devia estar cansado
  • 137. Mas se a canção se estende, se a canção continua
  • 138. E essa canção infinda é a única guirlanda
  • 139. Segue, meu coração, o girassol constante
  • 140. Chora, meu coração, com o girassol que chora
  • 141. Sabes por que te dói tudo o que dói agora
  • 142. Levantes pontuais das fontes da lembrança
  • 143. E o mistério da História é do mesmo tamanho
  • 144. Alexandria, a minha Electra é tua irmã
  • 145. Não tem sentido algum este sábio conselho
  • 146. Mas não é o mar que brilha à tona de um olhar
  • 147. Fonte marinha no deserto, stella maris
  • 148. O oásis é mágico e eram coisas de oásis
  • 149. Como no oásis de miragem, anda pousando
  • 150. No oásis existe sempre, ou não seria
  • 152. A criatura angélica no corpo de animal
  • 153. Esfinge grega no deserto oriental
  • 154. A pirâmide azul que interrompia a clara
  • 155. Como a luz atravessa infinitas esferas
  • 156. Que, se toca fazer do instante uma escultura
  • 157. A História, essa maga abstrata, a estranha hiena
  • 158. Tudo se transfigura. Tudo vai da agonia
  • 159. Recolocando o ser que resume o imperfeito
  • 160. E aceitamos que o ser só se conheça assim
  • 161. O mal de amar ou a agonia de perder?
  • 162. A estonteante novidade da beleza
  • 163. E, ainda assim, cotejando a vertigem constante
  • 164. Para encontrar em cada coisa a pura essência
  • 165. Padecer e cantar sem negar à estranheza
  • 166. Dizem do pau de dar em doido, da aroeira
  • 167. Penso nessa metáfora, de uma brutalidade
  • 168. A ti, que desde o início foste um berço infinito
  • 169. És como a cortesã que todos os monarcas
  • 170. Talvez para limpar um dia a alma doente
  • 171. “A culpa não é minha…“, pensava Dona Plácida
  • 172. As vaidades do amor como ensaios da página
  • 173. Ah, se a paixão do ser e a máscara do nome
  • 174. E como os dados vão rolando sem querer
  • 175. E eu, que sonho apagar-me! O que eu mais necessito
  • 176. Eu, que embrenhei no temporal meu mundo mágico
  • 177. Mas já não quero mais viver da intensidade
  • 178. Quando eu rogo à geada do canto que congele
  • 179. Na eternidade, de que História era um rascunho

III. Os noturnos (adagio molto mosso)

  • 1. Singrando, como um véu diáfano de vela
  • 2. Fica o que o vento diz… Uma esponja no ar
  • 3. O vento, eu sei, há de fazer de uma escultura
  • 4. O meu delírio lento… O instante redivivo
  • 5. Célere como o verso que busca retornar
  • 6. Para obter daquele vento caprichoso
  • 7. Fazer, ou tentar fazer com que o infinito
  • 8. Ou será mala e cuia? A ordem não importa
  • 9. A flor da moita da Floresta da Tijuca
  • 10. Ah, as mariposas do desejo insatisfeito!
  • 11. Mas esta aqui não sai da sala! Inconseqüente
  • 12. Ouvi dizer um dia, do vento que aparece
  • 13. Dele ouvi certa vez que, se o havia escrito
  • 14. “Luz angélica e negra” lhe há de haver dito a Musa
  • 15. Não, eles nunca se enganaram, com efeito
  • 16. É ali que surgem Tebas, toda aquela família
  • 17. Fôramos dar, vizinho ao mar como quem finge
  • 18. O tordo assassinado, o espectro que assinala
  • 19. Andas sozinha. A fulgurante companhia
  • 20. A morte é para ti como o excesso na festa
  • 21. E doloroso como o gesto lapidar
  • 22. Serás eternamente assim, apaixonada
  • 23. Anos depois ainda invadias as calçadas
  • 24. Talvez porque o perfume agreste da Sicília
  • 25. E eis que tomaste posição, como as marés
  • 26. A coleção de improvidências que emprestamos
  • 27. Claro que tudo está solenemente atado
  • 28. É o cheiro acidental, misturado, da dália
  • 29. A vida, ondulação de perfumes mortais
  • 30. Quando a visão apaixonada se evapora
  • 31. Tudo tem um perfume que sufoca mas canta
  • 32. Tua nudez e a minha confundem-se no ponto
  • 33. Mas que perfume, por total, Alexandria
  • 34. Tenho duas laranjas, cada uma da cor
  • 35. E tenho dois narcisos brancos, dois instantes
  • 36. Tuas insolações totais tornaram pálidos
  • 37. Quem for vivendo da emoção da despedida
  • 38. Principiaste, Alexandria, onde a receita
  • 39. A vida toda é um relicário itinerante
  • 40. Um dia, na calçada de uma tarde de agosto
  • 41. Dois elefantes incomodam muita gente
  • 42. Meus dois braços em torno daquele torso, à altura
  • 43. Eu vivia a dançar com o duende no umbral
  • 44. E se algum dia se interrompe esse tropel?
  • 45. Nossos triunfos, nossos raptos de apogeu
  • 46. Há sempre um camafeu solitário na vida
  • 47. Mas morre o amor, talvez, jamais um corpo amado
  • 48. No coração do inverno uma folha divaga
  • 49. “E se a gema ofegante que tomas em teus braços
  • 50. Fora um verso de Goethe a inspirar-lhe o soneto
  • 51. Vejo no escuro que havia desde sempre no vago
  • 52. Outro poema de Goethe, sobre o eco, demora
  • 53. Sou o moleque do Rio (e do Rio Comprido!)
  • 54. O mau instaurador da música pensada
  • 55. Da poesia ele dizia que era a música
  • 56. Se eu quisesse fazer que soluçassem as flautas
  • 57. O amor também é música, a passacaglia, a giga
  • 58. A mim que importa o belo acorde dessas rosas
  • 59. No espelho em que combino sons e visões a um nada
  • 60. Vais-te tornando pedra, meu coração, e sinto
  • 61. Meu inferno é um lugar de guitarras vazias
  • 62. A arte não tem escrúpulos, tem apenas medida
  • 63. Pobre Mercúcio! Convenceu Romeu a entrar
  • 64. Se como o florentino eu baixo aos meus infernos
  • 65. Suponha-se que estou deitado e agora ponha
  • 66. Eis-me agora de volta a esse quarto irreal
  • 67. Vais-te tornando agora uma flor de balcão
  • 68. Ah, mas e as nuvens que arrancávamos às crinas
  • 69. É sempre extemporânea a dança da alegria
  • 70. E eu, que largara tudo e que saíra atrás
  • 71. E fui-me acostumando a confundir-te a um eu
  • 72. Talvez fosse melhor nunca mais pensar nisso
  • 73. Certa manhã ele acordou cedo demais
  • 74. Nesse equilíbrio incontentado, essa ginástica
  • 75. Fazer, como Camões, sôbolos rios velhos
  • 76. Recostei-o aos frontões do tempo, cariátide
  • 77. Mas é tudo mentira, essa múmia exemplar
  • 78. Imaginem-se os cabelos de Aquiles (ou de Atena)
  • 79. Mas quando minhas duas mãos pousavam os dedos
  • 80. Ah, a evocação do amor! mas qual? A enluarada
  • 81. O visitante da hora grave… É no vazio
  • 82. Mas fico a soluçar assim, como quem pensa
  • 83. Que me podem valer agora a encenatura
  • 84. Que me importa chorar ou não chorar agora?
  • 85. Que te resta dizer? Que mal te conhecias
  • 86. Sacode agora a impenitente cabeleira
  • 87. Despenteou-se para sempre o teu jardim
  • 88. Mas acabou-se o que era doce, Estrela-d’Alva!
  • 89. É que não quero mais, Alexandria, nada
  • 90. Mas vai durando, como um doido camafeu
  • 91. E enquanto a doce assombração do desespero
  • 92. Deixai-me soluçar como quem morde os beiços
  • 93. Soluçar as palavras de amor que ouço dizer
  • 94. Ah, dura em tudo isso uma longa agonia
  • 95. Vinte anos depois revelaram-lhe o erro
  • 96. E um dia hei de morrer eu também. Totalmente
  • 97. São as correntes a arrastar a assombração
  • 98. Surpreendi in extremis esse gesto
  • 99. Sua múmia é real, mas é ainda o avesso
  • 100. É impossível morrer onde a luz se rebela
  • 101. Há que subir à região desconhecida
  • 102. Tenho da escuridão, de seu recolhimento
  • 103. À distância, isolado pela perspectiva
  • 104. Lento, movendo na luz branca a majestade
  • 105. A derradeira aparição num corredor
  • 106. Penso em Elizabeth Bishop diante
  • 107. Um ser assim, Alexandria, tão distante
  • 108. Vi-o em Karesuando essa única vez
  • 109. Eu o olhava de longe sob um sol que caía
  • 110. A primeira-real, a que palma por palma
  • 111. Caía o vento, a ventania amainara
  • 112. Calávamo-nos todos; éramos cinco ou seis
  • 113. Um de nós murmurava alguma coisa assim
  • 114. Mas não – era o Cervo Real do Kalavala
  • 115. Tu não morres nem deixas morrer, tu não cessas
  • 116. Deixai-me entre esses dois extremos exemplares
  • 117. Longe, ao extremo oposto daquele drama agora
  • 118. É que eles voam em direção ao Oriente
  • 119. Um roseiral, um sangue extemporâneo e aéreo
  • 120. Proclamadas as asas, livre de confundi-las
  • 121. É então que a doce erupção do rouxinol
  • 122. Tens razão, tudo volta, a luz é espectral
  • 123. Pode ser que toquemos assim, um dia, o fim
  • 124. Mas não é essa a eternidade que perdemos
  • 125. É preciso ir morrendo, constatando que o vivo
  • 126. Nos termos da espantosa metáfora de Homero
  • 127. Confio em que retenhas dessa enteada tua
  • 128. Certo soldado, um dos teus líricos gigantes
  • 129. E instante a instante amou-o, com o doce desespero
  • 130. Alimenta-te dele, loba concupiscente
  • 131. Sei espionar, como o espionava o seu soldado
  • 132. E ali vejo um soldado ante uma eternidade
  • 133. Um vulto incorporado ao sol, Osíris, Mitra
  • 134. Voltar, passar aos poucos de volteio a arabesco
  • 135. Kurt Gödel opôs seu teorema aberto
  • 136. É uma coroa ardente, um jubileu de espinhos
  • 137. No Novo México, a cem milhas de Albuquerque
  • 138. O pânico da alma à fome sem remédio
  • 139. Eu evocava a luz imitando-lhe o jogo
  • 140. Hei de morrer assim: opondo uma medida
  • 141. Os pés do Redentor, que andaram neste mundo
  • 142. Divindade do Styx, ministro do arquinegro
  • 143. Quando eu me aproximar do último cadastro
  • 144. Adeus, meu Argonauta, meu rouxinol de ouro
  • 145. Notaste, Anacreonte, como eu o mando embora
  • 146. Sem mais defesa alguma, conversarei contigo
  • 147. Do que colheste, do que andaste harmonizando
  • 148. E um corpo quer cessar… O meu corpo não quer
  • 149. Carregamos conosco, cada qual a seu modo
  • 150. Adeus, cidade-signo, cidade-cicatriz
  • 151. Cantai comigo agora, assim, postumamente
  • 152. Somos o coro e aquele tordo espera agora
  • 153. Cantar a noite sempre próxima, imanente
  • 154. E se não for possível calar musicalmente
  • 155. Ah, como separar a dançarina e a dança?
  • 156. Mas toca-me encerrar este como senil
  • 157. Pus a pena ao papel sabendo muito bem
  • 158. Um exercício em torno aos modos temporais
  • 159. Penso em Píndaro agora, que também não sabia
  • 160. Espírito de Alexandria e dos meus versos
  • 161. Arranca-me da boca esse arroio irritante
  • 162. O teu delírio, coração, ascende enfim
  • 163. Teu delírio também sobe aos astros agora
  • 164. Ouve o meu grito, ó giro eterno e luminoso
  • 165. Ó Via Láctea, ó luminosa irmã – segundo
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