“A habitação dos deuses” (2009), por Érico Nogueira

          Quando, no início de 2003, se não me engano, Bruno Tolentino permitiu-me ler os originais de A imitação do amanhecer, fiquei estupefato. O livro – tema, aliás, de meu primeiro artigo de jornal, que os leitores já tiveram ocasião de ler aqui mesmo neste blogue – simplesmente não tem precedentes na literatura de língua portuguesa, para não dizer na ocidental. Não é esta, porém, – a do lugar da obra na Weltliteratur – a perspectiva sob que gostaria de a considerar aqui; em vez disso, falarei de uma experiência muito pessoal, i.e., como, ao lê-la, fui literalmente obrigado a definir meu espaço criativo, meus procedimentos técnicos, – minha poética. Numa palavra: a leitura de A imitação do amanhecer foi, para mim, uma experiência fundamental, que mudaria para sempre a minha relação com a poesia.

          Dos 538 poemas do livro, há um, em especial, por que me apaixonei à primeira vista, e até hoje, depois de seis anos de convivência, não tem me deixado em paz. Leiamo-lo (III. 104):

“Lento, movendo na luz branca a majestade,
a elegância do vulto, o cervo da Lapônia
cruza o fim do verão polar como a lacônica
exclamação crepuscular da eternidade.
Já não cabe mover-se com a mesma agilidade,
desapetece-lhe correr na luz agônica
que empalidece tão depressa e desmorona-
se-lhe entre a coroa agreste e o pinheiral. É tarde;
a lua vai morrer e nascer tantas vezes
da imensa solidão tentacular agora,
e o cervo imobiliza-se para a grande demora
na treva elementar, a habitação dos deuses;
e, lento, à contraluz, é uma estátua de cinza
excruciante: a última pétala agoniza.”

          Primeiro, o metro. O alexandrino de Bruno é sui generis: ele funde o clássico metro francês com uma dicção mais próxima da língua inglesa e as cesuras do dodecassílabo castelhano. Assim que pude perceber e compreender tamanha engenhosidade rítmica, vi-me às voltas com a própria substância da poiesis. Se quisesse sobreviver artisticamente (concluí), teria de desenvolver uma dicção à altura. Donde a minha busca por um verso “denso”, um verso que, independentemente da medida, fosse “anguloso” e mais ou menos dissonante, em contraponto à melodiosa harmonia da dicção de Tolentino.

          Quanto aos motivos do poema, eles diferem um pouco do “otimismo”, da fé na redenção do homem, da submissão sofocliana à morte e à aniquilação que tanto caracterizam A imitação do amanhecer. E foi justamente por isso que me chamou a atenção: pois o poema me apontava um caminho, uma senda que, embora claramente percebida, o poeta não percorrera até o fim: o “elogio” da treva, e a (euripidiana) revolta diante do inelutável; a comunhão com as substâncias elementares, com o silêncio, a agonia; a opção pela beleza “difícil”, que de tão tortuosa flerta com a feiúra. Ao lê-lo, eu parecia penetrar no meu domínio próprio, e encontrar um “mundo” que poderia subsistir, talvez, depois da Alexandria de Bruno.

          Finalmente, o livro todo é uma lição, não só de poesia, mas, sobretudo, de vida, de dedicação à arte. Como não me canso (e às vezes me gabo) de ler na dedicatória do meu exemplar, Bruno o considerava um convite – para o neófito, sempre arrogante, “ponderar o ofício que (o) escolheu”.

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