Por que escrevo? (2001) – Bruno Tolentino

          Digamos que escrevo para tentar separar o mundo-como-tal do mundo-como-idéia. Claro? Bem, talvez tenha outras motivações menos conscientes, mas não tenho melhor justificativa para exercer um ofício tão perigoso… Imaginar-se autor parece-me tamanha petulância que desde que me entendo tento fingir que sirvo para alguma outra coisa! Não tem adiantado muito, mas à medida que ia aceitando o inevitável descobria que talvez tivesse mesmo que arcar com o estranhíssimo ofício. Pelo menos até verificar se tinha ou não razão em meu sentimento de alarme ante os riscos que corre o espírito sempre que se propõe abordar o real guiado por sua ancestral tendência à abstração. Afinal, cedo me haviam feito observar que o Ocidente começara mal com Édipo, visto que o que faz a honra do pensamento conceitual, de todo pensamento, é a sua função de inquirir, e não a de providenciar respostas… Ponderações que acabavam por me levar de volta ao meu ponto de partida, ao mundo-como-idéia. Vale dizer, a uma idéia fixa. Porque o que desde o início focalizou o, por assim dizer, “nervo ótimo” de minhas reflexões, mesmo as mais casuais, foram sempre os malefícios da Idéia, provindos todos de abusos metodológicos que, força é convir, em nada afetam a posição capital que sempre há de caber em todo esforço cognitivo à ilustre vilã de meus alarmes: queira-se ou não, a Idéia é o inescapável norte magnético do mapa móvel da aventura cognoscente.

          Meus textos não disputam essa evidência incontroversa, ao contrário, todos eles padecem sob o impacto desse sol de meio-dia, paradoxalmente o mais capaz, senão mesmo o único em grau de induzir à meia-noite da alucinação a arquiconhecida, vocacional cegueira humana. O cego nu ao sol a pino do Conceito, o ébrio mesmerizado pela Luz Conceitual – dou-o por descontado – é figura chave em nossa inelutável herança edípica, helênica portanto. E é esse espectro, rebento de uma paixão dir-se-ia atávica, que ronda o âmago e subleva o centro nervoso de meu inteiro esforço de escrever. Não por acaso meu livro capital, que a Editora Globo lançará na Bienal do Livro, em maio, chama-se O Mundo como Idéia, e haveria de me custar quatro décadas de atenção obsessiva. Não creio que tivesse podido escrever nenhum dos outros sem recurso àquele rascunho paralelo, espécie de alter ego de cada um deles; gradual retrato oculto no sótão assediado de luz agônica. O Mundo como Idéia foi-me, estes anos todos, uma espécie de repositório oblíquo, o espelho convexo em que se movia inquisitivamente a sombra conceitual de cada metáfora que eu confiava ao papel. No livro-arena digladiava-me de encontro às minhas dúvidas mais íntimas, mais irredutíveis, com elas lutava por uma filosofia da forma que me permitisse exercer sem má consciência o grave, o difícil ofício da poiésis.

          Como se vê, não vivi exatamente infenso às sereias da Idéia, longe disso. Por isso mesmo constatei a que ponto elas podem desviar, obscurecer, obstruir até a mais sofrida via de acesso à intuição do ser, com que finuras logram atar Pégaso a Anteu e velar-lhes aos dois o esplendor da rosa-múndi. É em nome da Idéia que, século após século desde os fins da Idade Média, vem-se hipotecando a aventura cognoscente a um empirismo às avessas, espécie de remanso especulativo a substituir-se às perplexidades da condição mortal. Contra um tal cenário, a vida do espírito tem tido que escolher, basicamente, entre duas posturas, só em aparência opostas: ou bem “retira-se” da arena, desativando suas tensões com a abdicação de um mea-culpa de sonâmbulo, tautológica e fatalista, ou bem “abole” a intratável opacidade do real num movimento de ebriez altiva, de cegueira rebelde. Esta última, argumenta este obcecado em praticamente todos os seus textos, seria a grande tentação, o refúgio por excelência (e há mesmo quem o diga inescapável) da inquietude ocidental. Édipo pode cegar-se e o cego pode vagar à luz matinal ou crepuscular, sem meios de distingüi-las senão pela tepidez maior ou menor desta ou daquela carícia anônima na epiderme, na superfície apenas, do sensível. Ou pode optar por um qualquer sucedâneo da noite, trancafiar-se no casarão marmóreo, frio, vazio – o frio vazio do conceito – e ali jogar com os Escravos de Jó os intermináveis caxangás do sistema. Deste há bem mais a dizer: mas do conceito per se (como da metáfora, de resto) basta observar que nada mais é que um instrumento: nobre, ilustre, indispensável que seja, o que não pode é inverter a relação entre meios e fins.

          Ora, quando o propõe como o substrato mesmo do conhecimento – em vez do contraponto formal que é a noite tumultuosa do sensível –, aquele milenar viés da mente bem pode ser que mal se dê conta de trocar o mundo-como-tal pelo mundo-como-idéia. No entanto, salta aos olhos que sua redução a um jogo de conceitos passa pelo encolhimento da complexa precariedade do real, mediante um esquartejamento dito analítico que faz tabula rasa da unicidade do ser; este vê-se reduzido a pouco mais que uma hipótese anestesiada na mesa de operação “das transfigurações sem nome próprio” – nos termos em que evoco este aspecto crucial do moderno drama da razão, antes de submetê-lo a uma análise algo mais detida numa das seqüências mas ambiciosas que já me atrevi a compor: as páginas intituladas A imitação da música, conclusão e fecho do referido O Mundo como Idéia. O qual, longe de uma apologia, sob seu prosaico e altissonante título anuncia uma diagnose: confrontada às tensões e aos paradoxos de que se nutre a rosa cognoscente, a vida do espírito tende a capitular ante as seduções do conceito, que por sua vez entorpece-a com fórmulas, métodos e dogmas que nada mais logram além de uma leitura pretensamente “segura”, e ao cabo apenas redutiva, dos fundamentos do ser e das categorias do real. Se a renúncia do “sonâmbulo”, mero recurso estetizante, pode ser que nasça do que no mesmo livro chamei a “investida do amor pânico” (leia-se: de um paroxismo agônico, mas ainda vital, do espírito perplexo), na segunda espécie, na altiva escolha daquele renitente moedeiro falso, o espírito ébrio de luz conceitual, há um solipsismo deliberado, a criatura de um orgulho pétreo e irreversível: é no altar do conceito que começa o que, em As horas de Katharina (São Paulo, Companhia das Letras, 1994, p. 155), descrevo como a tentativa de habituar “um puro palácio aritmético“, e no citado A imitação da música denomino “a marmorização moral do ser“.

          Para melhor perceber o que entendo por esse processo, que se imagine certa figura descamada – a pura criatura da mente – habitando o nobre “salão das quatro janelas”, cume da clássica morada de todos os alheamentos ante a luz moritura. É ali que a impecável estatuária a que aspira o homem conceitual modorra e sonha o complacente elixir “imortal” do sistema, esse gêmeo inconfesso da notória embriaguez formal da “arte pura”, da arte-pela-arte. Mais abaixo, no porão da mansão esplêndida, o poço de sombras pétreas da Medusa, o sol negro do exílio, a noite fria. A ele descem, negociando a escadaria em espiral da apostasia, lado a lado, o sonho do Belo e o pesadelo do Ideal. Imagine-se um franco diálogo entre os dois, ou entre a Inocência e a Experiência, ou ainda – por que não? – entre o jovem Keats e o velho Blake, talvez encalhados nalgum limbo entre os portais do Érebo e a iminência do Juízo Final… Ali, enquanto aguardam a transfiguração poética, aceitam posar para Poussin, ou para Cláudio, o Loreno, e conversam. Eu ouço algo assim:

– Como foi que as estátuas do poço da Medusa
chegaram lá? – Ainda eram vivas ao descer.
– E por que desceriam? – Porque existe no ser
uma obscura gravidade, a luz difusa

de um sol doente que cobiça o entardecer.
– Mas num mundo de pedra?! – O mundo é uma confusa
noção tumultuosa, e há na forma um prazer,
criatura do orgulho, que é quase uma recusa

e vai levando a própria luz a arrefecer.
– Voltariam de lá? – Quem? – Todos, cada estátua
com seu sol de mentira… – Não sei, porque morrer
é a grande embriaguez da alma, e ela anda à cata
de se evadir, de ser o que deixa de ser.
Há uma estranha euforia na morte que não mata

(Os deuses de hoje. Rio de Janeiro, Record, 1995, p. 129)

         Talvez devesse bastar com essa indiscrição, mas, mal encetado o retorno a este mundo e a suas “noções tumultuosas”, deparo-me com outra sombra ilustre, a do velho Sêneca; foi ele quem se referiu, plotinianamente, a certo movimento do espírito que, sem renunciar à autoconsciência, deixa-se raptar em amoroso abandono a um modo de percepção que, fiel à etimologia, aquele agudo espírito latino aproxima da exemplar noção de rapto: cum universo rapi. Ora, a ambição conceitual tende ao contrário desse consentimento, desse ato de humildade do intelecto ante a inteireza da percepção, e ergue-se às antípodas de toda experiência do mundo enquanto rapto e assim faz legitimamente, conceda-se, visto que o conceito, enquanto utensílio de certo modo do conhecimento, busca uma definição de dados e termos que fixe uma “idéia” do mundo, a rigor uma sua fisionomia fundada em tal ou tal claridade certificante, ainda quando limitadora e empobrecida. Até aí tudo bem, toda intrínseca função sendo um direito a exercer; resta que de perda e redenção não se fala nunca nesse tipo de discurso, de que a treva, o abismo, o desastre, a dor – a morte, em suma – vêm-se banidos, subtraídos à equação e postos entre parênteses, suspensos em epochê, como se diz nas Matemáticas.

          O nervo da questão, quer-me parecer, está no fato de que não há lição de trevas nos reinos diuturnos do conceito, todos eles opostos ao “império do real“, aquele mesmo que, segundo o melhor Drummond, no que de nós dependa “não existe“. E, quando não exista, será porque onde não há lição de trevas tampouco haverá lição de coisas, questão equívoca em que até mesmo nosso primeiro Poeta Maior parece ter-se enredado… É que sem um chiaroscuro, sem as mediações da treva, as “coisas” não têm “sombra”, e segue-se que nesse tipo de “registro” sem interesse intelectual ou anelo algum pelo que o ultrapasse, tampouco há de haver lição de modelagem digna do nome; nenhuma, em todo caso, que não tenda ao que chamo a marmorização moral do ser – para o homem conceitual a única admissível resposta às inquietações da mente ante o fugas, o precário, o elusivo. E no que constituiria essa “lição”, o que seria essa “modelagem” além de um exercício formal de cunho e natureza quando muito simbólicos? Entendo-a, mais bem, por aquela operação da inteligência que tem cura, antes de tudo, da intratável rugosidade do real, e que ao buscar formar-se uma qualquer imagem dele só se legitima ao equilibrar-lhe as tensões e os paradoxos de modo a efetivamente tocar aquele nervo vital, aquela carnatura viva da linguagem em que significado e significante resultam indissociáveis – portanto significativos. É evidente que o espírito de conceito nada sabe e nada quer saber desse equilíbrio, desse exercício sobretudo moral.

          Bête noire em todos os meus livros e firme obstáculo a esse tipo de conseguimento, o conceito não quer ouvir falar de meter a mão na massa informe a modelar, antes prefere-lhe um modelo, contentando-se em comprimir a vida do espírito nas finuras do espírito de sistema. Este último, eminente bastardo da humana febre de ilusões certificantes, surge como uma ocorrência recente no pensamento ocidental, mas sua onipresença desde o apogeu hegemônico do Idealismo Alemão resulta de um processo vindo de longe, aquele mesmo que na Antigüidade Clássica se intitulava Gnosis, e não por acaso iria prover, senão o substrato, certamente a mola mestra à “grande virada dos tempos humanistas” – como em certo poema o faço dizer à primeira feminista do Ocidente, Santa Reparata, uma obscura rapariga da Síria bizantina, inicialmente feita padroeira da Catedral de Florença, mas destituída à primeira lufada dos tempi nuovi… Desde então a macharada tem especulado, à saciedade em tempos recentes, sobre a chamada “crise da representação”, entre outras novidades. Não ignoro a colocação, mas em tudo o que escrevo tomo-a como o ponto de partida a um corpo-a-copro, verso-a-verso e olho-no-olho, com o mais insistente dos espectros da criatura: e adivinhou, leitor, refiro-me, quem diria?, ao fascínio pela abstração, essa pedra de toque de todo reducionismo idealista.

          Contudo, não vá crer que me dou ao luxo de flertar com nenhum tipo de obscurantismo; suspeito até que minhas reservas ao racionalismo kantiano sejam mais táticas do que constitutivas: afinal tento pensar há quarent’anos e ainda não pude dispensar o recurso ao conceito! Se bem que alguma coisa sempre me faz sentir que quando não arrisco contradizer-me esbravejo em vão… Em todo caso, tornei-me escritor buscando entender de como e por que tudo quanto se proponha traduzir no mundo – o mundo-como-tal, a opacidade, os dados brutos do real – numa exatidão de teorema, termina por conceitualizá-lo até o desfiguramento, esvaziando-o de todo sentido para situá-lo além dos cinco sentidos, no Xangrilá da abstração: em lugar das asperezas do real, uma exata, executória (e ilusória) equação. Resta que essa ancestral tentação acaba por configurar uma tirania que “sufoca a fábula do ser” (outro verso tirado de O Mundo como Idéia), reduzindo-a a uma fabulação de laboratório: incapaz de dizer do sensível, o conceito dele faz mais uma noção, codificando assim em termos abstratos nossa vital relação com ele. No curso dessa imperiosa operação, a constante que a preside, o espírito de orgulho, engendra o espírito de sistema – celebrado simulacro incapaz de fazer mais do que permutar o Real pela Idéia, ou, como por cá o genial Millôr já o ironizou, de “trocar o fato pela versão”. Não seria o próprio Hegel, mestre e patrão da moderna dialética, a declarar que cada vez que os fatos não concordam com sua teoria tanto pior a coisa se torna para eles? Mera boutade, talvez, mas nem por isso menos reveladora de certo tipo de “lição de modelagem” – aquela em que a Idéia, essa Medusa-só-cabeça, assume-se capaz de fixar tudo à condição de não ter acesso a nada, a nada de vivo.

          Tenho que é o horror à morte a inspirar essa coisa horrenda, a mumificação do real, sua substituição pela hipnose de um modelo, na melhor das hipóteses marmorizante, e na pior delas nem isso. Contra todo autêntico raciocínio, a camisa-de-força do sistema, supremo desvio do gênio ocidental advindo à hora mesma de seu titânico, napoleônico autocoroamento, nega a particularidade do ser, troca-lhe os paradoxos pela promessa de uma ataraxia que o quer magnificar e só faz estultificá-lo, estatualizando-o: os conflitos cedem aos conceitos, o sujeito divorcia-se do objeto, e a criatura – rebatizada “o homem”– fica sem o mundo, presa de uma arbitrária ordenação peremptória, o cego nu no casarão vazio. Desse mal esplêndido o Ocidente padece agudamente desde a Alta Renascença. Sucederam-se os séculos, encontraram-se e contrastaram-se os estilos, sem que cada Zeitgeist renunciasse à mesmíssima meta e perene premissa: estetizante e sutil, a medusificação marmorizada de nossa herança clássica insistiu e resistiu, renitente, tenaz. Talvez porque de fato exista, tatuada na pobre alma em sursis, senão na textura mesma do ser enquanto nostalgia edênica, como que uma última blasfêmia, aquela avassaladora euforia ante o espírito de abstração, nossa paixão da morte que não mata… Isto posto, que se atente bem: poeta não é maître à penser e jamais pretendi que escavo e escrevo para tentar configurar mais uma teoria, antes o faço de modo a testemunhar de uma resistência a tentações desse tipo, de que tampouco fui poupado. Mas não complico mais a coisa: confesso ao leitor que não sei porque inventei de ser escritor. A não ser que o que ficou dito acima faça algum sentido…

TOLENTINO, Bruno. “Por que escrevo?”. In: Encarte do CD O escritor por ele mesmo: Bruno Tolentino. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, 2001, pp. 1-13.

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